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Via Brasília – Da Cenarium

Reformas e economia perdem

A cena poderia ter se dado em qualquer endereço elegante da Faria Lima, avenida de São Paulo que abriga a mais alta nata da sociedade empresarial. Se reúnem para discutir cenários políticos possíveis, mas partem da premissa de que é muito difícil prever o que pode acontecer no País diante das crises política e institucional, com ênfase para o clima de conflagração entre os Poderes Executivo e Judiciário, e entre as duas Casas do Congresso, Câmara e Senado. Esta última crise, menos visível aos olhos da mídia, prejudica a agenda de reformas e a recuperação da economia. Ninguém ali aposta um centavo furado na versão “Paz e Amor” do presidente Jair Bolsonaro.

Guedes sem credibilidade

Antes mais discretos nas avaliações do governo Bolsonaro e do seu ministro da Economia, Paulo Guedes, os empresários já não poupam declarações duras, ainda que seja na presença de pessoas de fora do grupo. Avaliam que Bolsonaro se tornou um candidato inviável à reeleição e que “ninguém mais acredita no que o Paulo Guedes fala”, quase que aos risos. Sentada ali, boa parte do Produto Interno Bruto (PIB) afirma que o ministro da Economia quer fazer do Brasil o que fez, nos anos 1960, no Chile, em plena ditadura: “um exportador de commodities e importador de tudo, matando a indústria nacional.” A ausência de uma política industrial do governo para o país cobra seu preço.

Desembarque próximo

O cenário, para Bolsonaro, no meio empresarial, não poderia ser mais tenebroso. Quando as fragilidades políticas e de gestão ficam tão claras aos “donos do dinheiro”, o movimento natural é um desembarque discreto, mas ainda não escancarado, enquanto buscam uma “terceira via” que ainda não se apresenta nem como rosto nem como projeto. O presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG) é mencionado como boa opção, mas diante da constatação de que o ex-presidente Lula dificilmente seria batido, nesta terça-feira, 14, nenhuma voz o rejeita. Um silêncio que pode ser interpretado como quem consente e até admite a hipótese.

Pressão inflacionária

Nas ruas, a pressão inflacionária puxa a alta nos preços dos combustíveis e do gás de cozinha, e impactam no consumo de alimentos, com efeito cascata nas tarifas dos serviços, como o transporte público. Nos céus, a ausência de chuvas eleva ainda mais o custo da energia elétrica. O PIB brasileiro pode ser tudo, menos burro. Essa escalada no custo de vida alcança o bolso deles, que majoram seus preços porque aumentam seus custos de produção. Parte importante do que se chama “mercado” não vê vento favorável na política e na economia capaz de reverter o cenário descrito. Quem segura Bolsonaro, ainda, é o Centrão. Mas, até estes podem desembarcar se a crise econômica persistir, levando o povo às ruas.