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Luís Henrique Oliveira – Da Revista Cenarium

MANAUS — O dia 14 de janeiro de 2021 ficará marcado para sempre na memória de muitos amazonenses, principalmente para quem perdeu algum familiar, amigo ou conhecido por conta da falta de oxigênio que se instalou nos hospitais públicos e particulares de Manaus durante a segunda onda de Covid-19. A crise, segundo especialistas, foi causada, em grande parte, pela negligência de quem se negava a cuidados básicos como uso de máscara e se aglomerava em festas clandestinas ou no comércio.

Em um ano, muitos avanços foram obtidos e erros foram corrigidos no sistema de saúde pública. Agora, a nova onda causada pela variante Ômicron coloca em xeque tudo outra vez, caso parte da população insista em negar, agora, o principal meio de bloqueio da doença: a vacinação.

Quem esteve à frente do caos conta, com detalhes, o que via. A fisioterapeuta Lauriê Renata de Oliveira, de 45 anos, nunca havia passado por nada parecido. “Era coisa de filme. Nunca havia visto o hospital daquela forma. E detalhe, não era somente o sistema público de saúde que estava lotado. Passei por unidades particulares e vi a mesma coisa, as pessoas imploravam por atendimento, imploravam por cilindros, mas não tínhamos opção, não tínhamos estoque suficiente”, conta a profissional que atuou no Pronto-Socorro 28 de Agosto.

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Renata de Oliveira entre um atendimento e outro durante a crise de oxigênio. (Arquivo pessoal)

Para a fisioterapeuta, que chegou a atuar por mais de 24 horas ininterruptamente, o medo não foi maior que a vontade de ver seus pacientes recebendo alta. “Como profissional de saúde, temos de lidar com a linha tênue entre vida e morte quase que diariamente. Eu tinha medo, tenho até hoje, mas ele não pode ser maior que a vontade de tirar um paciente do hospital e levar para casa após uma alta. Todo paciente é pai de alguém, avô de alguém, filho de alguém. Todo paciente tem alguém esperando por ele em casa. Depois de anos de estudo e dedicação para me tornar uma profissional, eu jamais poderia ficar em casa olhando tudo acontecer. Fica a lição que a vida é muito mais frágil do que podemos imaginar e, por isso, precisamos ter empatia, responsabilidade e sobretudo, amor pela vida”, completa.

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À época, no dia 14 de janeiro, a Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas (FVS-AM) informou que o Estado registrava 2.205 pacientes internados, entre casos suspeitos e confirmados para Covid-19.

A vendedora Alice Silva dos Santos, de 21 anos, também viu e vivenciou de perto o drama causado pela falta de leitos no Amazonas quando o seu pai, o enfermeiro e sargento da Marinha Everton Mata dos Santos, de 40 anos, foi diagnosticado. “Quando meu pai descobriu, ele estava em Parintins, mas já estava com quadro bem avançado, com quase 70% do pulmão comprometido. Aí, ele foi transferido para Manaus, que ainda sofria com a escassez de oxigênio. Já sabíamos que seria muito improvável ele voltar à vida. Ele foi transferido novamente, dessa vez, para o Rio de Janeiro. Ficou intubado por dez dias e, no dia 22 de fevereiro, não resistiu”, disse.

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Everton Mata dos Santos, de 40 anos (Arquivo pessoal)

Rede particular colapsada

Assim como Alice e outras dezenas de familiares, a professora Suely Jesus da Silva perdeu o marido, Oscarino da Silva, de 52 anos, para Covid-19 em meio à crise. Ela conta que, mesmo com plano de saúde particular, precisou recorrer à rede pública, uma vez que o plano estava colapsado e não autorizou a entrada do funcionário público, que lembra ter sido “excelente esposo e pai, além de um funcionário público exemplar”.

“Foi um momento muito difícil para mim e minha família, nunca pensamos viver tal realidade. Meu esposo foi infectado não sabemos onde. Fomos até uma UBS, pois nosso plano de saúde não estava mais atendendo devido à grande demanda e ali ele foi atendido pelo médico, tomou as primeiras medicações. Mas meu esposo teve comprometimentos, até que chegamos ao 28 de Agosto. Foram dias de muita luta, desespero, medo, incertezas. Vivi dias de horrores. Parecia um filme de terror. Se não fosse o trabalho de bons profissionais, como a dra. Renata Oliveira, mais pessoas teriam morrido, infelizmente”, detalhou.

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Suely e o marido ao lado do casal de filhos. (Arquivo pessoal)

De acordo com o Ministério Público do Amazonas (MP-AM) e a Defensoria Pública do Amazonas (DPE-AM), mais de 60 pessoas morreram em todo o Estado por conta daquela falta de oxigênio. Mais de 500 pacientes foram transferidos às pressas para hospitais em outros Estados.

O governador Wilson Lima declarou, então, que estava tomando providências relacionadas à questão do oxigênio, que sofreu um aumento expressivo de demanda entre os dias 1º e 12 de janeiro daquele ano. “Entramos com uma ação na Justiça contra a empresa, para garantir que ela abasteça em quantidade suficiente a rede hospitalar do Estado. Nós estamos numa operação de guerra onde os insumos, sobretudo a questão do oxigênio nas unidades hospitalares, hoje, é o produto mais consumido diante dessa pandemia”, explicou o governador.

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Usinas de oxigênio, que funcionam como ‘geradores de luz’, chegam a Manaus na segunda onda da pandemia. (Reprodução/ Folha de S. Paulo)

Diante da falta de oxigênio em todo o Estado, uma estratégia foi desenvolvida para a transferência dos pacientes. De acordo com o então secretário de Estado da Saúde, na época, Marcellus Campêlo, “entre os meses de março e maio [2020], houve um consumo máximo de 30 mil metros cúbicos/mês. Hoje, são mais de 76 mil, um acréscimo de 160%”. Cerca de 100 pacientes foram transferidos para hospitais da Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (EBSERH), no Maranhão, Piauí, Rio Grande do Norte, Goiás e Distrito Federal, além de mais 100 para a rede estadual de saúde de Goiás.

Possíveis causas para a crise

Matéria jornalística da CENARIUM, publicada no ano passado, dava conta que diante da maior crise sanitária em Manaus (AM) com a chegada de uma variação do novo coronavírus em dezembro de 2020 (cepa P.1), a única forma, cientificamente comprovada, de conter o vírus era o isolamento social, à época. No entanto, sem dados técnicos, aliados amazonenses do presidente Jair Bolsonaro e o senador Eduardo Braga (MDB/AM) foram contrários ao Governo do Amazonas e trabalharam ativamente pela abertura do comércio.

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A pandemia fez superlotar os hospitais públicos e particulares em Manaus, gerando uma grave crise de oxigênio no início deste ano. O saldo de mortos por Covid-19, na capital, foi de 4.430 mortes, entre 1o. de janeiro e 2 de março, 1.050 a mais do que no primeiro ápice da pandemia em 2020, no mesmo período. “Quem foi contra o lockdown não tem o direito de deitar a cabeça em um travesseiro e dormir. São cúmplices de assassinato”, apontou o presidente da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid, senador Omar Aziz (PSD/AM).

União de forças

Ao atuar em dois grupos de apoio, a jornalista Maria Luiza Dacio também presenciou o drama das centenas de famílias que lutavam na busca incessante por cilindros de oxigênio. “Estávamos ajudando recolhendo doações, desde lanches, água, EPIs, insumos hospitalares, entre eles, cilindros. Uma certa vez, estávamos com uma pick-up em frente ao SPA da Redenção, entregando lanche para profissionais de saúde, e um grupo de familiares de pacientes internados nos parou implorando apoio no transporte de cilindros e ficamos das 18h às 23h30, na Carbox, uma empresa de abastecimento de oxigênio, no dia 15 de janeiro”, disse.

Segundo a jornalista, a união dos esforços contribuiu para que mais mortes fossem evitadas. “Quando chegamos no SPA, por volta das 0h do dia 15 de janeiro, as pessoas ficavam muito agradecidas. Mas eu me sentia muito impotente, pois, nós fazíamos o que estava ao nosso alcance, mas, mesmo assim, parecia pouco”, completou.

Novas usinas

Com o cenário caótico, o governo do Estado passou a receber oxigênio de diferentes fontes para suprir a demanda do sistema de saúde. Além de cilindros enviados de outros Estados, o Amazonas recebeu usinas de fabricação de oxigênio medicinal para atender os hospitais. No total, o governo informou que possui 39 equipamentos instalados em unidades de saúde de municípios do Amazonas. Os equipamentos têm a capacidade de produção de 17.856 metros cúbicos de oxigênio medicinal por dia, segundo informou o governo do Estado. “Quando assumi o governo, não havia uma usina no interior e hoje temos 39. Hoje temos 11 UTIs no interior e estamos mais preparados para poder enfrentar uma situação como essa, caso aconteça”.

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Dose de esperança

A largada na imunização na capital do Amazonas aconteceu no dia 18 de janeiro, com a vacinação de uma profissional de enfermagem, a indígena da etnia Witoto, Vanda Ortega, atuante no Parque das Tribos, comunidade que reúne diversas etnias em Manaus. Além da oferta de leitos e usinas de oxigênio, o plano de imunização foi o mais importante passo para frear o aumento de infecções.

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Uma das principais lideranças indígenas em Manaus, Vanda Ortega, da etnia Witoto, disse que a decisão é uma grande conquista para a população indígena (Divulgação/ Governo do Amazonas)

Cenário atual

Agora, até a última segunda-feira, 10, a Secretaria de Estado de Saúde do Amazonas (SES-AM) registrou 84 pacientes internados com Covid-19 em Manaus, sendo que, destes, 36 não haviam tomado nenhum dose do imunizante contra a doença, e 19 tinham apenas a primeira dose. Os números equivalem, respectivamente, a 43% e 22% dos internados.

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Os pacientes internados estavam hospitalizados em leitos clínicos e em Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) das redes pública e particular de saúde da capital. Entre os internados, 29, ou 35%, tinham duas vacinas ou apenas uma dose da Janssen. Dos que tomaram três doses, não havia ninguém internado.

Diante do cenário das internações, o infectologista Nelson Barbosa, que atua no Hospital e Pronto-Socorro (HPS) 28 de Agosto e Fundação de Medicina Tropical Doutor Heitor Vieira Dourado (FMT-HVD), relembra que o imunizante contra a Covid-19 não impede a contaminação pela doença, mas reduz muito o risco de casos graves do coronavírus. Segundo ele, das pessoas internadas com as duas doses da vacina na unidade, todas apresentam quadro leve ou moderado, sem ocorrência de casos graves.

“Com certeza que os casos de internação de vacinados não são casos graves, são leves a moderados, isso é por causa da vacinação sim. Porque todas as pessoas que tiveram a segunda dose ou dose de reforço estão tendo casos leves a moderados e estão indo para casa ficar em isolamento por sete a dez dias”, pontua à CENARIUM.

3ª onda de Covid-19 impulsionada pela Ômicron

Com a chegada da variante Ômicron e um crescimento significativo de casos confirmados da Covid-19 nos últimos dias, o pesquisador da Fiocruz Felipe Naveca confirmou, nessa quarta-feira, 13, ao programa ‘BOA NOITE, AMAZÔNIA‘, na rádio Onda Digital, que o Amazonas entrou na terceira onda do novo coronavírus.

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“O aumento do número de casos confirmados de Covid-19 nos últimos dias mostra que nós estamos claramente em uma curva ascendente de casos, então é mais uma onda surgindo, o aumento foi muito forte de um dia para o outro. No dia 10, nós tínhamos 229 casos confirmados, no dia 11, passa para mais de mil e ontem mais de 1.600 casos”, afirma o pesquisador Felipe Naveca, da Fiocruz, que destaca ainda que este não é o pico da nova onda.

Além da Ômicron, alguns outros fatores têm contribuído para o aumento de infecções, como citou o ex-prefeito de Manaus, Arthur Neto em um tuíte recente (no Twitter, rede social de micropostagens). “E mais uma vez estamos às voltas com o caos na saúde pública do Amazonas. A população se vê acuada com o aumento de casos de Influenza, Covid-19 e com a dupla contaminação: a ‘flurona’”.