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Marcela Leiros – Da Revista Cenarium

MANAUS — Uma obra em construção na Universidade Federal do Amazonas (Ufam), em Manaus, desmatou um trecho da maior reserva florestal da cidade e ameaça animais como o sauim-de-coleira, espécie criticamente ameaçada de extinção. À CENARIUM, ambientalistas destacaram que a derrubada de árvores centenárias para a construção do bloco da Faculdade de Odontologia (FAO) é “violenta”.

A reportagem esteve no local nessa sexta-feira, 20, e constatou o cenário. A obra está orçada no valor de mais de R$ 13 milhões, é realizada pela empresa de construções Tecon e ocorre no Setor Sul, onde ficam localizados outros blocos destinados a áreas da saúde e ciências biológicas, que abrigam cursos como Educação, Fisioterapia e Zootecnia. Homens trabalhavam no local, retirando os restos do que já havia sido derrubado com a ajuda de uma retroescavadeira.

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Segundo informações contidas no site da instituição, o bloco terá quatro pavimentos, medindo 4.454m² de área construída e ficará entre o prédio da Faculdade de Ciências Agrárias 2 (FCA 2) e o Restaurante Universitário (RU). O Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam) emitiu, em abril deste ano, uma Licença Ambiental Única (LAU) para supressão vegetal, com validade de um ano. A extensão da área derrubada, segundo o instituto, é de 0,56 hectares, equivalente a 5.600 metros quadrados. (Veja a licença ao fim da reportagem)

Ambientalistas criticam

A ambientalista Erika Laura Schloemp pontuou o impacto ambiental que a degradação poderá trazer. “Tanta planta podia ter sido translocada, ao invés de ser só derrubar tudo e picotar tudo. Isso é muito triste, muito violento. Eles ainda estão derrubando árvore, vão deixar só uma seringueira e uma sumaúma no local, mas mais de 100 árvores foram derrubadas”, disse ela.

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A Ufam não retornou os questionamentos da CENARIUM sobre a efetiva necessidade da obra, mas a ambientalista informou que houve uma reunião ainda nessa sexta-feira, 20, com a vice-reitora da universidade, Teka Fraxe, para falar sobre os impactos da obra. O resultado do encontro, que reuniu outros ambientalistas e professores da instituição, foi a criação de uma comissão de meio ambiente que vai avaliar esta e outras obras instituição.

“Infelizmente, é complicado parar esse tipo de construção. Na minha opinião, espero que a Ufam não se aposse mais dessas áreas com floresta, porque árvore em Manaus é tão difícil de manter e a reserva florestal da Ufam é a maior floresta urbana da cidade. Tem todo um significado, uma importância para a nossa cidade. E tem muita fauna e muita flora importantes lá dentro”, acrescentou ela.

Comunidade acadêmica surpresa

Assim como a ambientalista Erika Laura Schloemp, o biólogo e professor titular do Instituto de Ciências Biológicas (ICB) Ronis da Silveira também esteve presente na reunião com a vice-reitora e explicou que a comunidade acadêmica foi pega de surpresa com a supressão vegetal da área de vegetação secundária — resultante de um processo natural de regeneração da vegetação.

“O que aconteceu é que nós, como biólogos, enquanto departamento e comunidade do Setor Sul, não sabíamos desse processo da obra. Então isso nos pega de surpresa. Eu estou na Ufam há quase 20 anos, a gente viu aquelas árvores crescendo, algumas são marcadas e são objetos de algum nível de pesquisa, têm algumas espécies que a gente marca, tipo preguiças. Então faltou algum tipo de comunicação”, disse ele.

Silveira reiterou que apesar da legalidade da obra e da disposição da reitoria de acompanhar, junto à comunidade interna e externa, cada árvore tem o seu valor e a universidade deveria dar o exemplo de preservação.

“A vice-reitora entendeu perfeitamente e surgiu a ideia de propor uma comissão com poder de deliberativo. A ideia é que a gente consiga conversar tanto internamente quanto com a comunidade no entorno. A Ufam tem que ser um exemplo, pelo fato de ser uma universidade pública antiga, pela envergadura e o quadro de docentes. Num momento que a gente fala de desmatamento lá longe, no Alto Solimões, no Purus, isso está acontecendo na nossa casa”, concluiu ele.

Preservação e cuidado

No local, a estudante do 7º período de Fisioterapia Yara Abe, que estuda no Setor Sul, ficou espantada com o desmatamento. “Hoje, quando cheguei aqui para participar de um evento, eu vi que a Ufam está sendo desmatada. O lema da Ufam, por ser uma universidade federal, é preservação e cuidar do meio ambiente. Acho que manter o que tem e preservar é uma coisa, mas destruir o meio ambiente, acabar com as árvores que nós temos aqui, não é bom, não é uma necessidade”, disse ela.

A CENARIUM foi ao local nessa sexta-feira, 20, e constatou o desmatamento. (Ricardo Oliveira/ Revista Cenarium)

Animais ameaçados

A também estudante do curso de Ciências Biológicas da universidade e integrante do Projeto Saium Raiclicia Nayara falou à CENARIUM sobre os riscos à espécie. O sauim-de-coleira é uma espécie endêmica restrita à região de Manaus, se estendendo aos municípios de Rio Preto da Eva e Itacoatiara. O crescimento e desenvolvimento desordenado urbano dos últimos anos fez com que a espécie entrasse no ranking de criticamente ameaçados de extinção.

“Existem vários caminhos viáveis para minimizar os impactos que o crescimento urbano traz, mas economicamente o mais barato e fácil é simplesmente derrubar. Não faz sentido tantos projetos dentro da universidade e no mundo falando sobre educação ambiental, sobre o quão ruim o desmatamento é, e simplesmente a Reitoria fechar os olhos e desmatar para construir estacionamento? Que evolução é essa? Que proteção ambiental é essa?”, disse ela.

O projeto atua com o monitoramento de grupos dessa espécie, encontrados nos fragmentos na cidade e floresta contínua tanto em Manaus quanto nos outros dois municípios, buscando informações sobre a biologia dessa espécie. Cria ainda mudas de árvores frutíferas e de espécies pioneiras para plantio em fragmentos desmatados anteriormente visando a recuperação da área degradada.

“Dentro do próprio campus existem várias áreas que o Projeto Sauim fez o plantio e faz o monitoramento para que não ocorra a derrubada das mesmas”, complementou.

À CENARIUM, o Ipaam informou que toda licença emitida atende aos requisitos legais e que também foi emitida autorização para captura e resgate de animais silvestres da área. “Na liberação da licença são emitidas condicionantes e restrições que são monitoradas por este órgão”, disse o instituto.

Veja a licença do Ipaam: