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Iury Lima – Da Agência Amazônia

VILHENA (RO) – A Floresta Amazônica, onde o indigenista brasileiro Bruno da Cunha Araújo Pereira e o jornalista britânico Dominic Mark Phillips foram cruelmente assassinados, está tomada pelo crime organizado – e não é de hoje –, apontam organizações e especialistas ouvidos pela REVISTA CENARIUM. A diferença é que, “agora, o mundo inteiro está vendo”.

As galopantes taxas de desmatamento no maior bioma do País – mais de 2 mil campos de futebol de floresta nativa derrubados por dia entre janeiro e maio deste ano –, a relação entre a pesca ilegal e o tráfico de drogas por meio da lavagem de dinheiro na Região do Vale do Javari, no Amazonas, e a gritante violência perpetrada contra ativistas, jornalistas, ambientalistas e quem mais desafiar as organizações criminosas que atuam dentro de Áreas Protegidas convergem numa coisa só: a ausência do poder de Estado na Amazônia. Bruno e Dom foram postos à prova.

Crime bárbaro contra Bruno Pereira e Dom Phillips mobilizou manifestações de Povos Indígenas e servidores da Funai nos estados e no Distrito Federal (Marcela Leiros/ REVISTA CENARIUM)

Escalada de violência

Mortos a tiros com munição de caça, esquartejados, incendiados e depois enterrados no meio da floresta, Bruno Pereira e Dom Phillips, como era mais conhecido, foram vítimas de um crime político, na avaliação da União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja), que denunciou o desaparecimento dos dois em 5 de junho. Dessa mesma forma entendem o caso os servidores da Fundação Nacional do Índio (Funai), que entraram em greve nessa última quinta-feira, 23. 

Apesar da brutalidade com que foram cometidas, essas mortes não são uma novidade. Bruno é o terceiro indigenista morto nesta atual gestão da Funai, presidida por Marcelo Xavier, sob o governo Bolsonaro. 

O primeiro foi Maxciel Pereira dos Santos, morto em 2019 com um tiro no pescoço, na principal avenida de Tabatinga (AM), também próximo ao Vale do Javari. Ele tinha 34 anos e lutava pela proteção das Terras Indígenas. Já em Rondônia, um ano depois, o indigenista Rieli Franciscato morreu mediando um conflito entre indígenas isolados, na região do município de Seringueiras, e garimpeiros que estavam invadindo o território. Ele tinha 56 anos e foi atingido, acidentalmente, por uma flecha. Agora, em 2022, o ‘caso Bruno e Dom’, com vidas interrompidas aos 41 e 57 anos de idade, respectivamente.

Três indigenistas morreram de forma violenta somente na atual gestão da Funai (Fotos: Reprodução | Arte: Thiago Alencar/REVISTA CENARIUM)

Todas essas perdas ilustram muito bem uma devastadora realidade apresentada em dados pela ONG internacional Global Witness, em 2021: o Brasil ocupa a quarta posição entre os países que mais matam ambientalistas em todo o planeta.

Bruno e Dom

Bruno Pereira era consultor da União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja) e ajudava na articulação de uma rede de proteção desta, que é a segunda maior Terra Indígena (TI) em solo brasileiro, abrigando pelo menos seis etnias conhecidas e a maior quantidade de comunidades isoladas de que se tem registro. O indigenista também era considerado um dos mais importantes especialistas de sua geração em Povos Indígenas em isolamento e falava quatro idiomas nativos.

Já Dom Phillips, estava documentando o dia-a-dia repleto de ameaças sofridas por populações tradicionais da região. Ele planejava publicar tudo em um livro, mas não houve tempo. 

“A quem interessa um assassinato brutal como esse de duas pessoas que estavam ali, no ambiente de trabalho, que não era um ambiente hostil [como criticou o Presidente da república Jair Bolsonaro]. Era um ambiente conhecido pelo Bruno. Os indígenas o conheciam, portanto, o Dom Phillips, que foi junto com ele, estava sendo recebido do mesmo modo, com boa vontade, com hospitalidade”, declarou à reportagem a antropóloga do Conselho Indigenista Missionário (CIMI) e professora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), Lúcia Helena Rangel.

Para a professora e antropóloga Lúcia helena Rangel, as mortes de Bruno e Dom atendem a interesses do crime organizado (Wilson Dias/Agência Brasil)

Bruno e Dom foram vistos pela última vez, com vida, saindo da comunidade ribeirinha de São Rafael, no Vale do Javari, no dia 5 de junho . Até agora, três suspeitos de envolvimento no assassinato estão presos. 

Para a especialista, a violência tem sido um problema crônico no Brasil, “seja nas cidades, nos grandes centros urbanos, ou na Amazônia”. Ela critica o governo pela falta de competência em coibir as ilegalidades. “Essas organizações criminosas que atuam no Brasil inteiro estão com muito poder. E os nossos militares, as nossas polícias, não estão dando conta de conter essa violência. E mais: eu acho que o Governo Federal não quer conter a violência”, disse ainda. 

Olhos voltados ao Brasil

Internacionalmente, o caso é visto como o mais fiel retrato do descaso do governo brasileiro. Rendeu cobranças das Nações Unidas (ONU) e até manifestação no Tribunal Penal Internacional de Haia, promovida pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) contra a inércia do Estado, duramente criticada, também, por quem vive aqui. 

“Eles não apenas desapareceram ou foram assassinados. Eles foram cruelmente assassinados. E é isso que a gente está escancarando para o mundo: como o Brasil trata os ativistas e as pessoas que cuidam do meio ambiente e protegem os direitos humanos”, disse a ativista e coordenadora da Associação de Defesa Etnoambiental Kanindé e do Movimento Juventude Indígena de Rondônia, Txai Suruí, em entrevista à REVISTA CENARIUM

Txai Suruí relembra do líder indígena Ari-Uru-Eu-Wau-Wau, morto há dois anos; um crime sem solução (Gabriel Uchida/Reprodução)

Txai relembra do amigo de infância Ari Uru-Eu-Wau-Wau, assassinado em 2020 por denunciar a invasão e a extração ilegal de madeira no território de seu povo, em Rondônia. Ele foi encontrado morto, com uma lesão na região do pescoço. “E até hoje não temos respostas, assim como aconteceu com outros assassinatos de defensores da floresta, que seguem sem solução”, lamentou a ativista.

“O que estamos vendo não é só um desrespeito ou uma ameaça à nossa floresta, à nossa Amazônia, mas uma ameaça a quem a defende. Hoje, um dos nossos maiores desafios é simplesmente sobreviver (…) Vemos que esses criminosos se baseiam, principalmente, na impunidade, numa certeza de que nada vai acontecer. E é verdade”, acrescentou.

Narcotráfico, pesca ilegal, violência e muito mais

O ex-coordenador da Funai no Vale do Javari, Antenor Vaz, é um profundo conhecedor da realidade e das irregularidades que assolam a TI, assim como foi Bruno Pereira. Ele relatou à reportagem que a escalada de crimes e violência onde deveria prevalecer a proteção e o respeito às comunidades tradicionais ganha um empurrão do desmonte da fundação, promovido pelo governo federal. Localizada na tríplice fronteira Brasil-Colômbia-Peru, a área, no extremo noroeste do Amazonas, virou caminho fácil para a droga. 

“É uma região onde, há muito tempo, os processos de invasão dos territórios são bastante fortes”, pontuou. “Recentemente, de uns cinco a oito anos para cá, houve um esvaziamento total da Funai, não só administração regional que fica na sede de Atalaia do Norte, mas, também, na Frente de Proteção Etnoambiental, que fica na confluência de dois rios: o rio Ituí e o Rio Itaquaí. Com pouquíssimas pessoas trabalhando, não se consegue mais desenvolver o trabalho de vigilância e proteção territorial”, lamentou Vaz.

Antenor Vaz, ex-coordenador da Funai no Vale do Javari não esconde o decepção e a insatisfação com o atual retrato da fundação (Iury Lima/REVISTA CENARIUM)

Ele afirma que a situação é muito pior, hoje em dia, por conta da presença de narcotraficantes, madeireiros e garimpeiros ilegais. “A Terra Indígena encontra-se totalmente invadida por esse crime organizado”, disse. 

“Parece redundante exigir que os órgãos competentes assumam a função constitucional de garantir a integridade e os direitos fundamentais desses povos indígenas (…)  O descaso da Funai é completamente visível. Não só pelo sucateamento de servidores para implementar a política de proteção indigenista brasileira, mas, também, pelo sucateamento de recursos financeiros”, declarou, decepcionado.

Para o assessor da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), Fabricio Amorim, o sucateamento gerou uma “situação prevista”. 

“É uma área de fronteira (…) o narcotráfico internacional tem aumentado muito sua força na região e se envolvido com esquemas ilegais de invasão da Terra Indígena. É um lugar de difícil acesso (…) um rio internacional. Então, esses criminosos praticam crimes no lado brasileiro e se escondem no lado peruano”, detalhou Amorim. 

O assessor da Coiab, Fabricio Amorim, lamenta, mas acredita que os crimes estão longe de acabar na região (Iury Lima/REVISTA CENARIUM)

Na avaliação dele, enquanto o governo continua inerte, os defensores da floresta e dos povos da mata “vão se tornando coletores de tragédias”. “Existe aqui uma situação gravíssima de garimpo e de muita violência. Estamos bem cansados, sabe? E acredito que não vai acabar por aí, não”, falou emocionado à reportagem.

Desmatamento

Como se não bastasse todos esses problemas, feridas do tamanho de metrópoles continuam a se alastrar pela Amazônia. A floresta sofreu com o pior grau de devastação dos últimos 15 anos: mais de 2 mil campos de futebol de floresta nativa foram derrubados entre janeiro e maio. Só neste último mês, foram 1.476 quilômetros quadrados, quase a metade de todo o acumulado de 2022 até agora: 44%. 

Mas o que isso tem a ver com as mortes violentas na região? Tudo, segundo o Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia. “Sempre que há desmatamento, há violência, há conflito no campo e, naquelas regiões mais remotas, ainda longe dessa fronteira, como o Vale do Javari, já tem sinais precoces de que vai haver pressão naquelas florestas e as pessoas que estão lá, já estão sendo ameaçadas”, esclareceu o pesquisador do Imazon, Carlos Souza Jr.  

Segundo ele, essa escalada de violência “culminou com a morte do indigenista Bruno Pereira e do jornalista Dom Phillips”.Eles foram assassinados de forma brutal e covarde por protegerem os Povos Indígenas do Vale do Javari e suas florestas”, acrescentou.

Pesquisador do Imazon, Carlos Souza Jr. vê relação entre o desmatamento e escolada de violência na Amazônia (Foto: frame de entrevista à REVISTA CENARIUM)

Por isso, na avalição do especialista, é preciso que os governos combatam o desmatamento ilegal e deem proteção aos povos da floresta e às pessoas que trabalham pela conservação da Amazônia.

Lúcia Helena Rangel, professora da PUC-SP e antropóloga do Cimi, aponta que é preciso reverter o cenário, mas que se fosse fácil, já teria sido feito.

“Os desafios são muitos e muito grandes, evidentemente, pois não basta um único indivíduo conhecer a realidade amazônica. O grande desafio é convencer outros de que a floresta é importante (…) a nossa chuva, a nossa água, o nosso clima, tudo passa pela Floresta Amazônica. O maior desafio é convencer o governo e a direita brasileira de que tudo isso é importante para todos nós. Que a destruição não vale a pena. Que a destruição é a morte para muitas gerações”, avaliou. 

Por ora, o que fica é a indignação de quem vê amigos, parceiros, companheiros de luta padecendo da forma mais ingrata e injusta.

“Se ontem foi o Maxciel, se ontem foi o Rieli Franciscato, se ontem foram indígenas assassinados, se ontem foram jovens e crianças estupradas e mortas por esse crime organizado que se apresenta por meio do garimpo e da extração ilegal de madeira – e outras atrocidades -, quem será amanhã? Quem será a próxima vida, vítima?”, ecoou Antenor Vaz, por fim, a pergunta que a parcela sensata, lúcida e empática do mundo repete.