Fundação Padre Anchieta

Custeada por dotações orçamentárias legalmente estabelecidas e recursos próprios obtidos junto à iniciativa privada, a Fundação Padre Anchieta mantém uma emissora de televisão de sinal aberto, a TV Cultura; uma emissora de TV a cabo por assinatura, a TV Rá-Tim-Bum; e duas emissoras de rádio: a Cultura AM e a Cultura FM.

CENTRO PAULISTA DE RÁDIO E TV EDUCATIVAS

Rua Cenno Sbrighi, 378 - Caixa Postal 66.028 CEP 05036-900
São Paulo/SP - Tel: (11) 2182.3000

Televisão

Rádio

Unsplash
Unsplash

Nas últimas semanas, um procedimento estético ganhou repercussão na internet: a cirurgia para alterar a cor do olho. O tópico viralizou após Andressa Urach e Maya Massafera mostrarem o resultado da operação em suas redes sociais. As duas escolheram mudar as cores escuras para olhos verdes claros. Os procedimentos não foram realizados no Brasil.

Chamada de queratopigmentação ou ceratopigmentação, a cirurgia é uma espécie ‘tatuagem’. A técnica consiste na implantação de micropigmentos de diferentes cores nas camadas mais internas da córnea, alterando sua coloração.

A operação é recomendada apenas em casos específicos, já que apresenta sérios riscos a curto e longo prazo para a córnea, como explica o Dr. Bruno Fontes, diretor da Sociedade Brasileira de Oftalmologia.

Leia mais: Influenza A é responsável por 74% das mortes por síndrome respiratória, aponta Fiocruz

“A córnea é como se fosse o vidro de um relógio. Essa lente transparente que a gente tem por fora, quando a gente olha, é transparente, nós não vemos, mas ela está ali. Para enxergar a íris, que é a parte colorida, a gente enxerga através da córnea”.

“Você transforma a córnea, que é um tecido transparente, em um tecido opaco. E isso é feito através da colocação ou injeção local de pigmentos de tatuagem. Essa tatuagem de córnea e pigmentação da córnea existe há décadas, mas para tratamento de defeitos funcionais “, completa.

O oftalmologista afirma que o procedimento gera diversos riscos. A curto prazo, a toxicidade da tinta aplicada pode causar, mesmo que em casos raros, uma inflamação grande na córnea, uma necrose. Ele também cita o fator de arrependimento, visto que a operação é irreversível. “Uma vez que você pigmenta o tecido, o outro não vai sair, com o tempo pode até desbotar, não ficar tão suave”, aponta.

No entanto, outras questões são mais preocupantes. A cirurgia pode implicar diretamente na função visual, já que o procedimento diminui a área central que controla a quantidade de luz que entra no olho, além de quadros mais comuns na visão.

“Uma vez que é feita essa tatuagem, você perde essa capacidade de acomodar [a quantidade de luz]. De noite ou em um ambiente de pouca luminosidade, vai entrar muito pouca luz, a visão da pessoa fica pior do que seria com uma pupila maior. E lá na frente, com o passar dos anos, ocorre o envelhecimento do olho”, esclarece Bruno Fontes.

O envelhecimento natural dos olhos, segundo o especialista, costuma levar a quadros como: catarata, glaucoma, degeneração macular, retinopatia diabética. Com a tatuagem, o diagnóstico pode ser dificultado.

“As doenças dentro do olho vão ser profundamente impactadas. A gente precisa enxergar o que tem para tratar, é quase impossível fazer cirurgia de catarata, por exemplo, com uma passagem de luz tão estreita, tão pequena. Assim, como também várias doenças do fundo do olho, vamos ter o diagnóstico e tratamento também com muitas dificuldades”.

Além dos riscos, o procedimento realizado pelas famosas ainda tem um pós operatório difícil e que gera incômodos. Sintomas como dor, ardência, sensação de areia nos olhos, sensibilidade à luz e lacrimejamento constante são os mais comuns.

Após a cirurgia, Andressa Urach reclamou da dor que sentia nos olhos.

"Eu tô com os olhos bem embaçados, não estou conseguindo enxergar direito. A dor foi horrível. Eu achei que ia ficar cega, sério", disse. "Eu não sei se isso é resultado do pós, mas sofri muito. Juro que me deu arrependimento. Espero não ficar cega, porque está tudo embaçado”.

Os outros riscos são: lesões na córnea que podem levar até à perfuração do olho, infecções graves, inflamações internas (uveítes), aumento da pressão intraocular e, em casos extremos, cegueira.

Legislação no Brasil

O Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO) recomenda a cirurgia apenas para os de pacientes com deficiência visual para revitalização das córneas esbranquiçadas nos olhos.

“O uso desse procedimento com finalidade puramente estética não é recomendado. Pode causar infecções, inflamações difíceis de tratar e alterações na córnea que são irreversíveis, dificultando futuros exames oculares ou cirurgias, como a de catarata”, afirma a presidente do CBO, Wilma Lelis, em um comunicado.

Em casos estéticos, como os realizados por Andressa Urach e Maya Massafera, não são permitidos no Brasil.

O médico da Sociedade Brasileira de Oftalmologia afirma que não vale o risco de trocar a cor dos olhos por meio da cirurgia. Para fins estéticos, ele ainda acredita que uma usar lentes de contato eventualmente é o jeito mais seguro.

“Eu acho que a lente de contato é perfeitamente justificável. O que não justifica é você criar uma certa mutilação, uma mudança na fisiologia, no funcionamento do olho irreversível por finalidades estéticas, deixando a função visual arriscada de alguma forma ao longo da vida”, argumenta.

Em nota, José Álvaro Pereira Gomes, presidente da Sociedade Brasileira de Córnea (SBC), também aponta que a cirurgia “não é um procedimento estético comum e só deve ser considerado quando outras opções, como lentes coloridas ou próteses, não funcionam”.

“Procedimentos como a ceratopigmentação não podem ser tratados como soluções estéticas simples ou seguras. A saúde ocular requer cuidados baseados em evidências científicas, ética profissional e zelo pela integridade do paciente”, enfatizam a SBC e a CBO.