A edição do último domingo (14) do Café Filosófico abordou a crise da saúde mental de crianças e adolescentes no contexto da aceleração da comunicação e da inteligência artificial. O episódio “Aceleração da comunicação nas telas: Saúde Mental e Desigualdade” teve como palestrante o psiquiatra Guilherme Polanczyk, e faz parte da série “A aceleração no divã: Sociedade e Comunicação na era da IA”, com curadoria de Marcelo Tas.
Durante o episódio, o médico atenta para o aumento de notificações de autolesão e suicídio no país entre 2011 e 2022, segundo o Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa). O maior crescimento foi registrado entre crianças e adolescentes, apesar de homens adultos e idosos ainda apresentarem as maiores taxas.
O palestrante acrescenta que esses problemas de saúde mental na infância e adolescência trazem prejuízos diversos, como nas relações familiares e de aprendizado. Além disso, cerca de 75% dos casos de problemas em adultos tiveram início antes dos 24 anos.
Leia também: Documentário produzido pelo Jornalismo da TV Cultura traz um retrospecto da COP30
Ele ainda salienta a desigualdade com que as questões de saúde mental afetam a população. “Os problemas de saúde mental afetam de uma forma desigual as pessoas. Aqueles em grupos minoritários e com menores condições socioeconômicas, por exemplo, além de serem mais afetados, vão também ter menos condições de receberem o cuidado que necessitam.”
Esse aumento dos casos não é explicado somente pelas redes sociais, mas também por mudanças climáticas, tecnologias transformadoras e instabilidade política e social – aspectos do cotidiano que geram incerteza e estresse.
Leia mais: Ministério da Justiça lança uma nova atualização para o aplicativo "Celular Seguro"
Guilherme Polanczyk também destaca um estilo parental excessivamente protetor, que, ao buscar evitar o estresse e o fracasso a todo custo, acaba gerando desfechos negativos para a saúde mental dos filhos.
“Nós temos, por exemplo, os ‘pais helicópteros’, que estão, como o nome diz, sempre por cima, evitando que algo ruim aconteça, ou aquelas mães com exigências desmedidas sobre as crianças. Então nós temos, nesse cuidado parental intensivo, muito afeto às custas da autonomia, muitas expectativas dos pais, muito medo de fracasso dos filhos, e os estudos mostram desfechos negativos em termos de saúde mental para essas crianças e adolescentes ao longo do tempo”, diz.
Por fim, o palestrante ressalta a necessidade de criar um ambiente – online e offline – saudável, onde as crianças possam desenvolver autonomia, arriscar, errar e aprender com os erros.
“Em relação aos problemas de saúde mental, quando existe ali a doença, quando a prevenção já não é mais eficaz, nós precisamos colocar isso como prioridade. Hoje, a saúde mental de crianças e adolescentes não é uma prioridade, de forma alguma, em termos de financiamento, seja para serviços, ou seja para pesquisa no mundo.”
Assista à íntegra do Café Filosófico:
Leia: Conscientização ambiental, homenagem a Sérgio Vaz e mais: veja os destaques do Boas Práticas
REDES SOCIAIS