O norte-americano Will Eisner nos deixou há duas décadas (ele viveu entre 1917 e 2005). Para quem lê e para quem estuda quadrinhos, seu nome continua aparecendo com frequência. E acho que hoje é uma boa oportunidade para tentar resumir, em três pequenos pontos, por que ele continua importante.

O primeiro ponto é a qualidade de sua obra. Qualquer artista talentoso, em qualquer mídia, sempre cita que para entender a forma de arte que atua, “passou” pelos clássicos. Ou seja, entrou em contato, volta a ele depois, estudou. Um músico de rock dificilmente não ouviu álbuns inteiros dos Beatles e Rolling Stones; um cineasta contemporâneo deve ter assistido a clássicos de Orson Welles, Akira Kurosawa, François Truffaut. E um artista de HQs, seja roteirista ou ilustrador, deve ter passado, em algum momento, pelo belga Hergé, pelo japonês Osamu Tezuka, pelo norte-americano Jack Kirby e por Will Eisner.
A carreira de Eisner é simplesmente enorme. São décadas dedicadas aos quadrinhos. A primeira fase é famosa pela criação do personagem Spirit, e temos histórias curtas, de oito páginas, com humor, aventura e recursos gráficos inovadores, como um excepcional aproveitamento de cenários, balões de letras, recordatórios e afins.

Na fase das graphic novels, temos histórias mais longas, profundas, em que a arte continua linda, mas que há um aprofundamento dos personagens e o tratamento de temais mais complexos. Temos aqui livros incríveis, que pessoalmente me marcaram, como “O Contrato com Deus”, “Ao Coração da Tempestade”, “O Edifício” e outros.

E, só para deixar claro: falei acima que a qualidade torna a obra de Eisner praticamente obrigatória para outros quadrinistas, mas é claro que não é só para eles. Se você for alguém sem pretensões de se tornar um artista da área, também vai sair ganhando com sua leitura.
O segundo ponto, para mim, é o estudo contante. Não tenho nada contra artistas que encontram uma fórmula e seguem nela, ficando cada vez mais peritos naquele segmento específico. Eisner, entretanto, não foi assim – o salto dele das histórias curtas do Spirit para as graphic novels posteriores é um exemplo, mas não resume tudo. Ele estudava outros quadrinistas, conceitos teóricos (de outras Artes, inclusives) etc.

Ao mesmo tempo em que estudava, e aplicava em suas obras, ele também procurava transmitir seus conceitos. Eisner foi um teórico dos quadrinhos. Dava aulas, palestras, escrevia livros – alguns, teóricos, como “Quadrinhos e Arte Sequencial” e “Narrativas Gráficas”; outros de entrevistas, como “Esiner/Miller” e “Shop Talk – Segredos da Prancheta”.
E há um terceiro ponto: Eisner era um ativista, um batalhador pelo reconhecimento dos quadrinhos como forma de arte. Enquanto no Japão e em boa parte da Europa as HQs sempre foram levadas a sério, nos EUA havia (há, ainda) um preconceito de que quadrinhos devem ser voltados apenas para o público infantojuvenil. Despreza-se, assim, autores incríveis como Gilbert Shelton, Robert Crumb, Cathy Guisewite e tantos outros. Eisner, desde o início de sua carreia, batalhou pelo reconhecimento dos quadrinhos. Parte desta batalha é bem brevemente retratada pelo norte-americano Scott McCloud em seu ótimo livro “Desvendando os Quadrinhos”.

Scott McCloud, aliás, é um reconhecido quadrinista, com influências de Will Eisner, e um reconhecido teórico sobre quadrinhos, também com influências de... Will Eisner. Entendeu onde eu quero chegar? Por isso que, no início deste texto, eu mencionei que hoje era uma boa oportunidade para comentar por que Will Eisner continua importante: porque ele nunca deixou de ser.
ps – está no Catarse a HQ “Will Eisner - Uma Biografia em Quadrinhos”, de Stephen Weiner e Dan Mazur. Em paralelo a isso, há uma coletânea recente com obras dele, lançada pela Devir, chamada “Biblioteca Eisner”.

Pedro Cirne é formado em jornalismo, desenhos e histórias em quadrinhos. É autor do romance “Venha me ver enquanto estou viva” e da graphic novel “Púrpura”, ilustrada por 17 artistas dos 8 países que falam português.
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