“Parem o mundo, Mafalda chega aos EUA!”

Foi assim que a versão em espanhol do vetusto jornal norte-americano “The New York Times” deu a notícia. Mafalda, obra máxima do argentino-espanhol Quino (1932-2020), finalmente sairá em inglês, para deleite dos leitores dos EUA. E meu primeiro pensamento foi: mas só agora? Será que o NY Times errou?
Cresci cercado por quadrinhos da Mafalda por todos os lados – meus pais eram fãs, e minha infância foi acompanhada dos eternos (e hilários) questionamentos da menininha portenha, bem como das aventuras de Asterix, Tintim e Lucky Luke. Quanto mais eu cresci, mais percebi que minha casa não era uma exceção: tratava-se de um sucesso mundial, especialmente nos países que falam espanhol. Nem me passava pela cabeça que os leitores norte-americanos, regados a gente do quilate de Will Eisner, Robert Crumb, Winsor McCay e tantos outros, haviam sido privados destes quadrinhos.

As tiras estreladas pela Mafalda e sua incrível trupe de coadjuvantes foram publicadas originalmente na Argentina entre setembro de 64 a junho de 73. E disse incrível, e pode parecer que fossem super-humanos ou acima da média, mas é o contrário: seus pais e seus pequenos amigos eram humanos demais, cheios de qualidades e defeitos, e é isso que nos aproximava deles. A teimosia do Manolito, a ingenuidade do Filipe, a luta diária do pai dela (que nunca teve seu nome revelado) para que o salário chegasse ao fim do mês... temos um pouco de cada um deles dentro de nós.
"Quando comecei, os adultos liam a Mafalda na página editorial, e não na de quadrinhos", me contou o Quino em uma entrevista em 1999. Isso diz um bocado sobre a tira: tinha humor, claro, mas não só. Tratava-se de uma crítica social de uma Argentina que vivia sob profunda crise econômica e política, tendo de conviver com injustiças sociais que pareciam, naquele início dos anos 70, eternas. E que para Quino, décadas depois do fim da tira, ainda pareceriam.
Talvez por isso, por essa preocupação social, que a matéria do NY Times à qual me referi acima tenha chamada a Mafalda de “Charlie Brown com socialismo”, em uma comparação com outro icônico personagem dos quadrinhos, o menino doce e ingênuo amigo do Snoopy, criado por Charles M. Schulz.
De fato, a preocupação em denunciar as injustiças do mundo eram muito presentes na HQs da Mafalda – e não só neste trabalho específico do Quino. Não sei quais são os planos para a editora norte-americana que publicará sua obra, mas espero que inclua os livros de cartuns, tão espetaculares quanto as tiras da Mafaldinha, na minha opinião.

"Minhas charges mostram sempre situações de uma pessoa mais poderosa ou rica frente a outra mais humilde ou pobre", disse ele. "Também abordo muito os temas sociais, mas sempre sem usar os personagens verdadeiros do mundo político da Argentina."
Esse recurso, claro, tornou os cartuns universais: você lê um dos vários livros do Quino após a fase da Mafalda, e identifica o Brasil (o mundo?) de hoje, mesmo que a crítica tenha sido publicada nos anos 70.

E, claro, Quino detestava ver que o mundo não havia evoluído o tanto que ele gostaria. "Não era minha intenção que ela [a tira da Mafalda] durasse tanto. Eu esperava que o mundo melhorasse, mas a política liberal está tornando os ricos cada vez mais ricos e os pobres ainda mais pobres. O resultado dessa política é lastimável", me contou em 1999.
O NY Times não estava errado. Esta será a primeira vez que Mafalda sairá nos EUA. Uma ótima oportunidade para os americanos conhecerem o brilhante trabalho deste talentoso argentino – e para quem já o conhece, de o reler. Enquanto o mundo continuar injusto e lamentável, continuaremos precisando de alguém que o denuncie, para que o compreendamos, e de uma dose diária de humor e lirismo, para o suportamos. Todo dia é um bom dia para ler Mafalda.

Pedro Cirne é formado em jornalismo, desenhos e histórias em quadrinhos. É autor do romance “Venha me ver enquanto estou viva” e da graphic novel “Púrpura”, ilustrada por 17 artistas dos 8 países que falam português.
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