Quando eu terminei de ler “Quando as Estrelas se Espalham” (nVersos Editora), fiquei com muitas questões na cabeça. Muitas mesmo, nem vou tentar abordar todas aqui. Mas separei alguns pontos que acho que valem a pena abordar.

Antes de começar, uma pequena explicação: “Quando as Estrelas se Espalham” é uma HQ autobiográfica, escrita pelo somali Omar Mohamed baseada em sua própria infância, e ilustrada pela norte-americana Victoria Jamieson.
A história mostra o cotidiano de Mohamed se seu irmão mais novo, Hasaan, em Dadaab, um campo para refugiados no Quênia. O pai deles faleceu, vítima da insana violência da guerra civil somali, e os irmãos se separaram da mãe na fuga desesperada que salvou suas vidas. A esperança de um dia a reencontrar é um dos pilares que dá força a eles dentro da asfixiante rotina de quem não tem bens materiais, apenas a roupa do corpo e uma tenda emprestada que aproveitam como lar provisório.

Por meio de filmes e livros, eu tinha uma ideia de como era a vida em um campo de refugiados. Mas nada foi tão esclarecedor quanto o relato de Mohamed. Por ter vivido lá por tantos anos, e por ser tão talentoso com as palavras, ele mostra o relato mais sincero e agridoce que já li a respeito: dormir no chão duro ao lado do irmão, que tem problemas de comunicação e fala uma única palavra, “roio”; a convivência com a mãe adotiva, que assumiu a responsabilidade de tomar conta deles quando chegaram ao acampamento; os riscos com violência e bullying, duas desgraças infelizmente universais; o tédio massivo que pode significar o fim da esperança.
Em meio ao cotidiano tão duro e repetitivo retratado por Mohamed, há pontos que saltam aos olhos. O primeiro é a presença alegre, doce e carinhosa de Hasaan, seu irmão. Não dá para imaginar como seria a infância de um sem o outro ao lado. E Hasaan, mesmo falando apenas uma palavra, é uma presença incrível. Por meio de seu interesse e seus atos, consegue expressar perfeitamente seu carinho e atenção não só a seu irmão, mas a todos a seu redor. Em uma comunidade de pessoas que não se conhecem e são forçadas a viverem juntas, a simpatia de Hasaan e seu interesse genuíno pelas pessoas ao seu redor são contagiantes.

Há uma escola no campo de refugiados de Dabaab. Isso, claro, é um ponto positivo, mas também traz pontos de reflexão. Se Mohamed for para as aulas, quem tomará conta de seu irmão, veloz e imprevisível – será que a mãe adotiva deles, com idade avançada, conseguiria contê-lo caso ele, por brincadeira, corresse sem destino, como fazia por vezes? Uma amiga de Mohamed é uma das melhores alunas da turma e adora estudar – mas o que ela deve fazer se seus pais querem que ela abandone a escola para um casamento arranjado que melhoraria a vida de todos seus parentes? São questões que podem parecer ter respostas óbvias, mas que são apresentadas na HQ em uma complexidade maior do que estas poucas linhas conseguem transmitir.
Há detalhes que apenas quem viveu consegue retratar com tanta precisão. Por exemplo: um problema que a turma inteira da escola enfrenta duas vezes por mês. A comida em um campo de refugiados é insuficiente, e distribuída a cada duas semanas. Ela deveria durar 15 dias, mas isso é impossível. E por volta do 13º, 14º dia é possível ver o reflexo da fome em sala de aula: alunos quietos, sofrendo, com dificuldade de prestarem atenção por estarem precisando de nutrientes. Muitos sequer dormiram, apenas passaram a noite famintos, tentando esquecer o fato de que eles e todos os membros de sua família não tinham o que comer.

Evidentemente, é doloroso ter contato com este cotidiano. E Mohamed consegue retratar o que viveu sem desespero. Ele retrata, claro, fatos tristes. Mas seus comentários, seus pensamentos, trazem momentos emocionantes, além de um impressionante e incansável sentimento de esperança.
Sabemos pouco sobre a guerra civil somalia, as condições dos campos de refugiados, o duro trabalho do Acnur (Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados) – eu, pelo menos, sei pouquíssimo. Este livro me mostrou que tenho muito mais a aprender. Mas não é só a questão social, ou geopolítica, que esta HQ nos traz. Mohamed retrata um lado da humanidade que parece cada vez mais extinto: um lado sensível, tolerante, altruísta, cheio de esperança. Quatro características que eu, pelo menos, ainda tenho muito a aprender.

A capa da edição brasileira ressalta que o livro ganhou um prêmio de melhor graphic novel para adolescentes e que foi finalista em outro, na categoria literatura juvenil. Acho que são feitos relevantes e devem ser ressaltados, mas temo que isso possa dizer que é uma HQ a ser lida apenas pelos mais jovens. Não é o caso: é um quadrinho sensível e belíssimo, que pode tocar leitores de todas as faixas etárias.
Pedro Cirne é formado em jornalismo, desenhos e histórias em quadrinhos. É autor do romance “Venha me ver enquanto estou viva” e da graphic novel “Púrpura”, ilustrada por 17 artistas dos 8 países que falam português.
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