Estamos na semana da Independência – e se você está chateado porque o feriado cai no domingo, vou tentar te consolar: eu estarei de plantão. Ou seja, melhor mudarmos de assunto.
Todo ano, quando chega este feriado, aproveito o clima para tentar valorizar quadrinhos brasileiros. Não só pela data em si, claro: o Brasil é um celeiro de grandes artistas da Nona Arte. Selecionei obras de alguns deles, espero que goste.

É difícil adaptar um livraço como o tenso “1984”, obra máxima de George Orwell. Inteligente e bem escrito, com cenas antológicas e um conceito que hoje faz parte do nosso cotidiano – e não me refiro aqui ao programa de TV. Fido Nesti foi muito bem nesta tarefa. Sua graphic novel é envolvente, reflexiva e consegue entregar uma história ao mesmo tempo fiel ao original e com ritmo, o que não é frequente neste tipo de adaptações.
“Como Lidar com seus Fantasmas”, de Lark

É muito bom o fato de estarmos lidando cada vez mais abertamente com questões de saúde mental, como ansiedade e insegurança. Lark aborda o tema nas curtas HQs que compõem este livro com um raro equilíbrio entre humor e drama, nos trazendo uma obra que, ao mesmo tempo que agrada, nos faz refletir sobre como lidamos nós mesmos.

Acho que em toda lista minha com obras de artistas nacionais eu acabo colocando uma HQ da Laerte. E o que é melhor: não é de caso pensado, sou simplesmente fã do seu trabalho. Este volume que indico aqui saiu há três meses: são 240 páginas reunindo todas as hilárias tirinhas com a versão da Laerte para Deus: uma figura simpática, bem-humorada, carinhosa... e demasiadamente humana. Que personagem!
“Grande Sertão: Veredas”, de Guazzelli e Rodrigo Rosa

Outra adaptação literária – e, mais uma vez, de uma obra original espetacular. “Grande Sertão” está no meu pódio de livros brasileiros favoritos, ao lado de “O Tempo e o Vento” e “Fogo Morto”. A linguagem utilizada por Guimarães Rosa é um dos pontos fortes do romance, mas se torna uma armadilha para quem tiver o hercúleo trabalho de transpor este livraço para outra mídia. Parabéns a Guazzelli e Rodrigo Rosa: entregaram uma HQ muito boa, ao mesmo tempo em que despertaram em mim o desejo de reler o livro original. Assim, claro, que eu me lembrar de para quem eu emprestei...
“Meta 3 – Baseado em Fatos Surreais”, de Marcelo Saravá, André Freitas, Omar Viñole e Deyvison Manes

Esta série é simplesmente ótima, e este talvez seja o melhor volume sobre a equipe formada por personagens de quadrinhos que investiga crimes cometidos por... outros personagens de quadrinhos. O “fatos surreais” do título é uma bela brincadeira, pois se baseia no crescimento de uma praga infelizmente real demais: a difusão proposital de fake news. Surreal é o fato de ter gente que acredite em tanta bobagem.
“Nori e Eu”, de Sonia Ninomiya e Masanori Ninomiya

Uma obra autobiográfica sincera e crua, que me fez pensar em muitas questões a respeito de família e sociedade. Na primeira parte da obra, Sonia Ninomiya conta como foi educar seu filho e a jornada para encontrar um diagnóstico correto para ele: Nori está no espectro autista. A segunda parte é escrita e ilustrada pelo próprio Nori, compartilhando sua versão da história. Bela sacada.
“O Menino Quadradinho”, de Ziraldo

Alegre, colorido e com lindas páginas de quadrinhos no início, mas com texto em prosa no final. O formato pode causar estranheza a princípio, mas tudo faz sentido após a leitura. Ziraldo nos entrega uma obra magnífica sobre infância, amadurecimento e... leitura.
Pedro Cirne é formado em jornalismo, desenhos e histórias em quadrinhos. É autor do romance “Venha me ver enquanto estou viva” e da graphic novel “Púrpura”, ilustrada por 17 artistas dos 8 países que falam português.
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