A violoncelista francesa Ophélie Gaillard completou 51 anos no último dia 13. Chega à maturidade não só como excelente instrumentista de reputação internacional. Busca sempre novos desafios. Neste sentido, segue à risca a lição do maior violoncelista do nosso tempo, Yo-Yo Ma: não se limita ao cânone das obras-primas compostas para o instrumento ao longo de séculos, das seis suítes para cello solo de Bach aos grandes concertos românticos.
É por isso que cada novo álbum representa mais um degrau no exercício da liberdade criativa. Nos últimos anos, ela vem fazendo da dança o mote de seus projetos artísticos. Dedicou álbuns às músicas, eruditas e populares, de cidades notáveis neste quesito como Nápoles e Londres. E agora mergulha no universo tão rico e particular do tango, em “Cello Tango”.
Mas atenção: ela não repete o gesto de tantos músicos eruditos de executar o tango sem livrar-se dos rituais clássicos. Ela mergulha de fato no tango. E o resultado é arrebatador.
Em entrevista recente, ao responder a uma pergunta sobre qual o compositor que mais a impacta neste domínio e a levou a embarcar no mundo do tango, Ophélie é taxativa e surpreendente ao escolher um compositor erudito argentino, em vez de Gardel: “O coração do álbum é Alberto Ginastera [1916-1983] cuja música eu adoro há muito tempo. Me apaixonei por sua peça ‘Puneña’ quando tinha uns 15 anos, depois de ouvir Rostropovich tocando e falando sobre ela”. E em seguida relembrou “o saudoso Antonio Meneses, também um grande defensor de Ginastera, interessante como compositor e personalidade: inspirava-se nas tradições musicais argentinas, mas nunca parou de questioná-las e reinventá-las. Ouve-se isso claramente nas duas peças que escolhi. Sempre fui fascinada por aprender tradições antigas e descobrir coisas novas, e acho que é por isso que me conectei com ele tão jovem. Gostei da maneira como ele explorou e até explodiu o instrumento: para fazer justiça à sua música, você precisa tocar como um violonista, um cantor, um percussionista, e não apenas como um violoncelista! ”
De fato, a audição de “Cello Tango” – que, na verdade, apresenta-se como álbum duplo, mais de uma hora e meia de música - nos encaminha para as peças de Ginastera. Mas está longe de transpirar erudição. Ela diz que aprendeu tudo sobre o tango na convivência com os dois bandoneonistas presentes no álbum, William Sabatier e Juanjo Mosalini. Arrisco apostar que este é o melhor e mais ousado álbum de tango entre tantas incursões de músicos clássicos neste universo. A maioria soa burocrática, repete – e mal – os cacoetes desta linguagem e modo de tocar que combina o respeito à tradição de Gardel (aliás, presente no álbum) e abre espaço para a expressão pessoal do músico.
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