Fundação Padre Anchieta

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Foto: Roberto Masotti/Reprodução
Foto: Roberto Masotti/Reprodução Arvo Pärt

Ouça o álbum completo:


Quando completou 80 anos, o compositor estoniano, que comemora esta semana seus 90 anos, já era um nome que extrapolava há bastante tempo o mundinho da música dita clássica – sem falar no ainda mais restrito universo da música contemporânea de invenção. Era – e ainda é – o maior vendedor de discos – hoje de “likes” e audições no streaming – da gravadora alemã ECM, ao lado do pianista de jazz Keith Jarrett.

Pois quando ele comemorou 80 anos, a poeta alemã Christine Kanownik, nascida em 1967 em Hamburgo, escreveu esta frase que passo a ler: “Arvo Pärt é o equivalente da música clássica àquele cara que você conheceu em uma festa uma vez e, depois disso, ele começa a aparecer em todos os lugares da sua vida. No trem. No supermercado. Ele pode até sentar na mesa ao lado da sua em um restaurante ou compor a trilha sonora de um dos seus filmes favoritos, sem que você perceba”.

Pois é isso mesmo. A estrela pop islandesa Björk, que tem sólida formação musical e conhece profundamente a música contemporânea de invenção, entrevistou o compositor em 2014 (trechos estão disponíveis no Youtube). Pois ela o definiu “um compositor supostamente sério que, de uma forma muito sensível, carrega dentro de si toda a batalha deste século”.

Católico ortodoxo russo, Pärt experimentou a música serial e a colagem, então em voga nos círculos de vanguarda do pós-segunda guerra mundial, técnicas àquela altura combatidas com rigor pelo realismo socialista pregado pelo governo soviético. Quando ruiu o império soviético, no final dos anos 1980, ele já estava em outra: cultivava o estilo tintinabulli, baseado na sonoridade dos sinos medievais, que adotara desde 1976.

Nada melhor, portanto, nesta efeméride, do que o convite para os ouvintes da Cultura FM mergulharem no abrangente álbum intitulado “Arvo Pärt Portrait”. A violinista canadense Angèle Dubeau lidera o ensemble La Pietà num buquê das mais conhecidas obras do compositor estoniano.

Pärt não é um dos papas do minimalismo, longe disso; mas é com frequência associado ao pós-modernismo, por seu caráter inclusivo. Mas com este último ele também bate de frente. Sua profunda espiritualidade extravasa por sua música, “eu poderia comparar minha música com uma luz branca na qual estão contas todas as luzes. Só um prisma pode dissociar estas cores e torná-las visíveis: este prisma pode bem ser o espírito do ouvinte”, declara Pärt em entrevistas.

Em outra rara entrevista, outra frase que vem repetindo como mantra: “Quanto mais somos lançados no caos, mais precisamos manter a ordem”. Sábias palavras num tempo em que a melhor maneira de descrever o planeta em 2025 é “caos”, não é mesmo?