Ouça o álbum completo:
“Durante anos, as pessoas tentaram tocar música antiga o mais próximo possível da forma como era tocada em sua época de origem, mas isso é uma autocontradição filosófica. A primeira questão é se é possível reproduzir a performance de um músico que viveu séculos atrás. Para mim, a reconstrução não é nem um pouco interessante. Queremos realmente agir como se não tivéssemos ouvido nenhuma música entre 1600 e os dias atuais? Acho que isso seria desonesto. Com esta gravação, dizemos adeus de uma vez por todas ao credo da autenticidade da música antiga.”
Esta profissão de fé musical foi assumida em 2006 pelo alaudista norueguês Rolf Lislevand, quando gravou seu primeiro álbum para a ECM. Desde então, vem percorrendo os meandros da música antiga sem perseguir o impossível sonho de reproduzir com exatidão as sonoridades, fraseados e prática musical das músicas concebidas séculos atrás.
Rolf nasceu em Oslo, em 1961. Começou estudando violão clássico entre 1980 e 1984. Em seguida estudou na Schola Cantorum Basiliensis, de Basel, na Suíça. O momento-chave de sua emancipação artística aconteceu ao tocar nos conjuntos de música historicamente informada do gambista catalão Jordí Savall. Foi lá que ele assimilou sua profissão de fé, que resume assim: “Eu apenas desenvolvo o que o material implica. Tudo deve estar contido na peça. Por que então ficou escondido até agora? Minha resposta habitual é que apenas mudamos as proporções – uma técnica bem barroca"
Em “Libro Primo”, recém-lançado álbum pela ECM CD desta semana na Cultura FM, Lislevand empunha o arquialaúde em arranjos das primeiras obras de compositores barrocos alaudistas do século 17 que integram suas primeiras partituras impressas. São, em bom latim, seus “libri primi”. Antes de embarcarmos na música, é bom saber que o arquialaúde é o instrumento de voz baixo da família dos alaúdes. Surgiu no final do século 16, inventado por Alessandro Piccinini: dispõe de dois jogos de cravelhas e sistemas simples ou duplos de 12 a 14 cordas. Os tipos de arquialaúdes mais comuns são a teorba e o chitarrone.
Voltemos a Rolf Livesland. Neste álbum solo, ele explora a natureza progressiva de peças dos italianos Johann Hieronymus Kapsberger, Giovanni Paolo Foscarini e Bernardo Gianoncelli, bem como duas Recerercadas do espanhol Diego Ortiz. Livesland toma liberdades historicamente informadas em suas interpretações, improvisando com frequência, como era costume na época. Chega a contribuir com seus próprios estudos pessoais da desafiadora forma da Passacaglia, tocando sua composição "Passacaglia al modo mio". A modernidade da sensibilidade melódica e rítmica dessa música pode soar surpreendente. “O novo estilo marcou um afastamento da polifonia renascentista tradicional”, escreve no encarte do álbum. A chamada nuove musiche “deu origem a expressões idiomáticas harmônicas inusitadamente dissonantes e ousadas, bem como a uma capacidade totalmente nova de expressar o conteúdo emocional do texto, acompanhado por noções inéditas de complexidade rítmica”.
Trocando em miúdos, Lislevand traz esta música para o nosso tempo.
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