Ouça o álbum completo:
“Tudo em sua música canta”, afirma o regente francês Léo Warynski em relação a Maurice Ravel. Mesmo que este, afinal, tenha composto pouco para coro a cappella, ou seja, sem acompanhamento instrumental. Fundador do grupo vocal Les Métaboles e seu diretor musical desde 2010, Warynski também tem carreira consolidada como regente sinfônico e sobretudo lírico.
Aliás, não apenas afirma como prova, no delicioso álbum “Singing Ravel”, recém-lançado em março. Um projeto de 2021 gravado em concerto na Cité de la Musique, em Paris, ano passado. E revisita obras arquiconhecidas de Ravel, porém “revelando harmonias e cores ocultas”, por meio de transcrições. São quatro os autores das transcrições presentes no álbum: Thibault Perrine, Thierry Machuel, Gérard Pesson e Clytus Gottwald (1925-2023).
O mestre deste tipo de transcrições é sem dúvida Gottwald, autor de muitas aventuras vocais extraordinárias ao longo de uma brilhante carreira. Ele inova de fato, como chama a atenção um crítico francês, Jean-Marc Petit: “Ele verdadeiramente inova: brinca com harmônicos, sobrepõe efeitos e cria ‘catedrais de acordes’ que conferem cores inéditas a "Soupir" (de “Trois poèmes”, de Stéphane Mallarmé), à sublime "Toi, le cœur de la rose" (de “L'Enfant et les sortilèges”) e a "La vallée des cloches". Sobretudo a última, quinta peça de “Miroirs”, o magnífico ciclo composto para piano solo.
Léo Warynski convidou quatro compositores diferentes para adaptar as intrincadas harmonias de Maurice Ravel à respiração e à voz. O membro mais jovem da "equipe", Thibault Perrine (nascido em 1979), abre a obra com a Pavana para uma Princesa Morta, musicada com letra do século XVI do poeta Jehan Tabourot. A graça atemporal da maravilhosa melodia de Ravel, o suave balanço rítmico, combinam perfeitamente com a harmonização vocal, que permanece relativamente fiel ao original, oferecida por Thibault Perrine. Apenas ocasionalmente o peso das palavras interfere no puro prazer da música.
Uma pequena falha está presente nos dois excertos de Mother Goose (Pavana da Bela Adormecida e O Jardim das Fadas), adaptados por Thierry Machuel (nascido em 1962). Ele acrescenta um assobio sutil, conferindo um efeito semelhante ao das Ondas Martenot a essas peças verdadeiramente mágicas. Um verdadeiro "camaleão vocal", o coro Les Métaboles se destaca pela qualidade de seus solistas e pelo equilíbrio do conjunto.
Bem mais originais são as adaptações de Clytus Gottwald (1925-2023). O compositor e musicólogo alemão, figura de destaque na música coral contemporânea, ousa verdadeiramente inovar: brinca com harmônicos, sobrepõe efeitos e cria "catedrais de acordes" que conferem cores inéditas a "Soupir" (de Trois poèmes, de Stéphane Mallarmé), à sublime "Toi, le cœur de la rose" (de L'Enfant et les sortilèges) e a "La vallée des cloches". Esta última peça, de Miroirs para piano, já se beneficiou de uma orquestração deslumbrante para percussão e orquestra de Percy Grainger (1882-1961). A adaptação coral de Clytus Gottwald, embora talvez não seja particularmente estridente, soa maravilhosa, uma verdadeira recriação da obra.
A empreitada mais arriscada ficou a cargo de Thibaut Perrine: uma transcrição vocal do “Boléro”. Um contrassenso, em relação a uma obra que faz da exploração dos timbres variados da orquestra sinfônica a razão de ser de uma melodia hipnoticamente repetida por 15 minutos. Mas esta avaliação quem faz é você. Ouça e tire suas conclusões.
CD da Semana
Autor: João Marcos Coelho
__________________________
Rádio Cultura FM
FM – 103,3 MHz
www.culturafm.com.br
App: CULTURA PLAY
REDES SOCIAIS