Ouça o álbum completo:
Entre 1965 e 68, portanto em apenas quatro anos, o quinteto de Miles Davis gravou um punhado de álbuns estelares, como “E.S.P.”, “Miles Smiles”, “Sorcerer”, “Nefertiti”, “Miles in the Sky” e “Filles de Killimanjaro”.
Um dos que causaram maior estranheza foi “E.S.P.”, de 1965, CD desta semana na Cultura FM. Uma estranheza causada por muitos motivos. O principal deles: oferecia novidades demais. Sabemos que o novo sempre é rechaçado num primeiro momento. A revista especializada “Donwbeat” escalou um trompetista, imaginem, para escrever a resenha. Kenny Dornham. Pois ele se encalacrou com questões estruturais, não conseguiu entender as inovações. E elas eram muitas.
Vou pedir licença a vocês para enumerar algumas. A quebra de paradigmas métricos, por exemplo, como o uso de métrica irregular, inclusive na forma consagrada dos 32 compassos.
“R.J.”, de Miles, outro exemplo. Ela só tem 19 compassos, e em forma AA ‘BA, ou seja 5 + 5 + 4 + 5. Frases irregulares de 5 compassos criam desafios extras para os solistas.
Outra composição, “Mood”, também de Miles, é o que se qualifica como uma “composição circular”. Isto é: ela é construída de tal maneira que, na sequência do primeiro enunciado do tema, o final do chorus A repetido soa como o início. Para entendermos melhor, isso é a mesma coisa que um palíndromo. Este palavrão significa que a palavra pode ser lida da esquerda para a direita e vice-versa, soando sempre igual. Dois exemplos para deixar claro: “A mala nada na lama” -- ou então “a grama é amarga”.
Na música funciona assim:
Melodia: a frase de abertura da composição soa como uma continuação da frase anterior
Harmonia: a progressão harmônica de abertura continua uma sequência iniciada no final da forma; e
Hipermétrica: grupos de métrica irregular sugerem uma continuação até o final da forma.
Também na música clássica há muitos exemplos. Como este cânone perpétuo da Oferenda Musical de Bach: Ouça:
Durante esta semana, você pode ouvir quantas vezes quiser no portal da Cultura FM este extraordinário álbum, que mudou a cena jazzística da segunda metade da década de 1960.
CD da Semana
Autor: João Marcos Coelho
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