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É muito provável que você nunca tenha ouvido falar da gravadora britânica Toccata Classics. Ela nasceu 21 anos atrás e hoje conta com um catálogo de 600 álbuns. Mas não espere obras ou compositores que frequentam as salas de concerto. Podemos chamá-la de gravadora de especiarias. Ou seja, grava e lança “uma vasta quantidade de música clássica de alta qualidade que as salas de concerto e as grandes gravadoras ignoram”. Resumindo: “preciosidades esquecidas”.
O CD desta semana na Cultura FM é um exemplo desta postura corajosa. Foi lançado mês passado. Intitula-se “Four hands on stage”, quatro mãos no palco. Stephanie McCallum e Eri Helyard tocam num piano Erard de cordas retas, o chamado piano de armário, de 1853. Naquele momento, a Europa assistia a um boom do piano, que nesta versão de cordas retas era acessível a praticamente todas as camadas da população.
Até o advento da reprodução fonográfica no final do século 19, o piano era o único meio de se reproduzir, em casa, o que havia sido ouvido nos raros -- e caros -- concertos. A quatro mãos num só piano, ou a dois pianos.
Falei tudo isso porque só assim entendemos as razões que levaram dois músicos muito conhecidos em seu tempo -- e hoje praticamente ignorados -- a empreitadas como uma “Opereta sem texto” e uma “Grande Sonata Sinfônica”. A opereta foi façanha de Ferdinand Hiller, contemporâneo exato e amigo de Liszt. Nasceu em 1811, morreu em 1885. A sonata sinfônica é proeza de Ignaz Moscheles, um dos maiores pianistas do século 19, virtuose admirado por Beethoven. Nasceu em 1794, morreu em 1870.
Transcrições e arranjos eram, portanto, comuns naquele momento histórico. A originalidade aqui é que nem a opereta nem a sonata sinfônica são arranjos de obras de terceiros. Foram pensadas e compostas como obras originais. Disse originais porque a primeira é uma ópera sem cantores, a outra uma sinfonia sem orquestra.
Erin Helyard, no excelente texto do encarte, escreve que “essa ambiguidade não é mera novidade. Ambas as obras pensam orquestral e teatralmente desde o início, considerando o dueto de piano não como um meio ‘reduzido’, mas como um motor composicional por direito próprio. A sinfonia de Moscheles se desenrola com genuíno peso sinfônico e seriedade arquitetônica; a opereta de Hiller evoca aberturas, conjuntos, coros e ritmo dramático com especificidade única, apesar da ausência de texto ou palco. Em ambos os casos, o piano não imita a orquestra ou o teatro, mas absorve sua lógica”. Ambas aparecem agora em primeira gravação: a opereta de Hiller em primeiro registro mundial; a sonata sinfônica em primeira gravação em piano de época.
CD da Semana
Autor: João Marcos Coelho
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