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Em outubro de 2016, fui convidada pela produção da cantora Marilia Mendonça para a gravação de seu primeiro DVD, em Manaus. Até hoje relembro do momento em detalhes e como fiquei impressionada com o porte da produção e a simpatia da artista e sua equipe.

Vou relatar aqui um pouco que vivi naquele fim de semana em Manaus, quando Marilia tinha um pouco mais de um ano de carreira e já com suas músicas entre as mais tocadas nas rádios de todo país. Lá já havia indícios de que ela se tornaria uma das maiores cantoras do Brasil.

Com então 21 anos, a goiana era uma expoente do chamado sertanejo pop. Ainda não existia o termo sofrência e muito menos o movimento feminejo.

O registro do DVD "Realidade" reuniu cerca de 40 mil pessoas no Sambódromo e contou com as participações de Henrique & Juliano, Gusttavo Lima e Dorgival Dantas.

Foi a segunda vez que a cantora se apresentou na capital amazonense. Em junho daquele mesmo ano, Marília havia cantado para um público recorde, motivo que levou a cidade a ser escolhida como cenário do trabalho, pois traria garantia de público. "Eu não tenho nem palavras para descrever o que estou sentindo agora. Hoje tive a certeza que escolhi o lugar certo. Obrigada, Manaus", agradeceu durante a gravação que acompanhei no dia 8 de outubro de 2016.

Sem firulas no palco e grandes performances, a sertaneja conduziu com facilidade o público, que se manteve paciente durante as três trocas de roupas e repetições de músicas. A cada parada para enxugar o suor do rosto provocado pelos 32 graus de temperatura de Manaus, ela agradecia a compreensão e soltava uma piada levando os fãs às gargalhadas. Já na terceira música, Marília não conteve a emoção e caiu no choro. Mais um momento de parada para retocar a maquiagem e uma biritada. "Me traz champagne. Maquiador adora quando a gente chora", ironizou enquanto era 'recomposta'.

Com autorização do produtor musical Eduardo Pepato, um dos mais requisitados do país, Marília voltava para seu público como se fosse uma amiga de longa data. Fernando "Catatau", diretor de imagens do DVD, também foi outro nome citado pela cantora durante toda a apresentação.

Entre um conselho amoroso e outro, sempre reforçando a importância de a mulher saber se valorizar, Marília Mendonça apresentou canções inéditas e alguns hits que já são sucessos conhecidos do público como "Eu sei de Cor", que está entre as mais tocadas no Brasil, "De Quem é a Culpa" (gravada por Cristiano Araújo) e "Infiel".

A grande surpresa daquela noite foi a participação da dupla sertaneja Henrique & Juliano, que dividiu os vocais em "Mudou a Estação", uma continuação da música "Flor e o Beija-flor", como a cantora explicou. Ao convidar a dupla do hit "Cuida Bem Dela" - também composição de Marília -, a sertaneja relembrou sua fase de compositora. "Eles que me apresentaram [ao mercado fonográfico] e hoje vão me apresentar de novo". Na sequência, a dupla surgiu no palco, só elogios à amiga e parceira, que não escondeu a alegria em dividir seu "grande dia" ao lado dos dois. "Esse DVD tinha que se chamar 'Realidade' e tinha que ser em Manaus". Juntos, cantaram duas vezes a música, acompanhados pelo público verso a verso.

Em entrevista de dezembro de 2015, Marília disse ao UOL que se considerava mais compositora que cantora. Questionada novamente nos bastidores da gravação se ainda tinha o mesmo sentimento, foi enfática ao me dizer: "Hoje me sinto muito mais cantora."

Lembro de ter conversado com ela, após o show, por alguns minutos entre uma coxinha, um trago e um beijo no então namorado. Tudo assim, bem a vontade, como se fosse uma amiga de longa data. Ela já citava que sua vida seguia para o sucesso cada vez maior.

Balada, sandálias e beijos

A anfitriã fez questão de estar à frente da produção que recepcionou familiares, amigos e convidados que estiveram em Manaus para participar da gravação de "Realidade".

Após serem recepcionados no aeroporto, em clima de balada sertaneja, com um "bus party" equipado com bebida, petiscos e copos personalizados, todos foram acomodados no mesmo hotel que ela e a família estavam acomodadas. Logo no hall de entrada um display com a imagem de Marília Mendonça desejando boas vindas.

Com tantas regalias e tratamento vip, passou despercebido para a maioria que o "ônibus da balada" permaneceu parado por mais de uma hora e meia esperando o segundo grupo que ainda não havia desembarcado no aeroporto.

O mesmo tratamento vip seguiu até a chegada ao Sambódromo, onde a apresentação começou pouco mais de meia-noite. Dessa vez, quem seguiu no 'ônibus balada' foram os familiares. No local, um lounge equipado com características de festa de casamento com DJ, pista de dança, bufê e até sandálias para o final da festa.

Após a apresentação, por volta das 3h da manhã, a cantora chegou para curtir sua própria "balada". Depois de cumprimentar os presentes, se jogou na bebida e comida, beijou muito o então namorado Yugner Ângelo e deixou o local com ar de dever cumprido.

Menina prodígio

Todo cuidado da cantora com os detalhes da produção passou a fazer sentido pra mim ao conversar, durante o almoço, com o empresário Wander Oliveira, que a conhecia desde os 14 anos. Época em que Marília levava suas composições ao seu escritório.

Wander ficava surpreso com a qualidade das letras, mas tinha a missão de conter a ansiedade da garotinha da mente fervilhante. Dono de um escritório com outros grandes nomes do sertanejo, colocou Marília nos bastidores do show business para que ela pudesse entender o mercado.

Após acompanhar outros artistas e ter sucessos gravados por esses nomes, decidiu que havia chegado o momento de abandonar o backstage e subir pro palco. Ela já estava pronta, mas ainda sem banda. Em junho de 2015, com a morte repentina do cantor Cristiano Araújo em um acidente, parte de seus músicos e equipe técnica ficou sem destino definido. "Foi no momento de Deus", lembra Wander que se comove ao relembrar o começo de tudo. "O ano de Marília não foi 2016, será 2017", vaticinou.

Figurando na lista de maiores arrecadadores de direitos autorais por conta dos vários hits já lançados, a goiana não via a cor desse dinheiro, que por decisão dela, ia imediatamente para a conta da mãe.

Em um cenário até pouco tempo dominado por homens, impôs-se com suas baladas românticas, carisma no palco e um discurso que emula posições feministas, ao defender a beleza fora dos padrões estéticos enraizados e o fortalecimento das mulheres na música sertaneja.

Voltei tão encantada com o que vivi em Manaus, tão satisfeita com os bons conselhos dela ao seu público feminino, tão feliz que uma artista como ela iria estourar que acabei conquistando um espaço fixo para falar de música.

Eu estava certa. Marilia cresceu, conquistou um espaço merecido, fez história. Tudo com respeito e competência, como tem que ser.

Obrigada, Marilia. Seja recebida com todas as honras de uma estrela que deixa um legado importante na música brasileira.

Essas são as músicas que foram gravadas naquele outubro de 2016:

Eu sei de cor
A gente não se aguenta
Traição não tem perdão
Nem foi e já voltou
Amante não tem lar
Ei saudade
De quem é a culpa
Saudade do meu ex
Mudou a estação
Olha só você
Sofrendo por três
Se ame mais
Eu não sou novela
A gente não tá junto
Por mais 3 horas
Não casa não
Até o tempo passa
Perto de você