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Giovanni Antonini / Foto: Federico Emmi

Ouça o álbum completo:


Em vez de adotar a ordem cronológica das 107 sinfonias de Josef Haydn, um projeto-mamute que só terminará em 2032 -- data do tricentenário de nascimento do compositor --, o maestro italiano Giovanni Antonini optou por organizá-las tematicamente. Assim, cada álbum da integral assume interesse maior.

O primeiro álbum, de 2014, intitulava-se “La Passione”. E o mais recente, lançado há um mês, “Trauer”, palavra alemã que significa luto, pesar, penitência, dor, tristeza. Antonini explica a justaposição das sinfonias 44 e 52: “Essa ideia surgiu da inspiração ‘fúnebre’ da Sinfonia nº 44, cujo caráter, no entanto, está longe de ser fúnebre. Nesta chamada sinfonia ‘de luto’, assim como na Sinfonia nº 52 de Haydn, especialmente em seus movimentos rápidos, prevalece um espírito poderosamente dramático, por vezes melancólico, mas sempre vital. Os finais alegres destas duas obras, juntamente com o lirismo e a teatralidade dos minuetos lentos e enigmáticos, alternam entre diferentes estados de espírito, contrastantes, combativos e agitados”.

Mas esta integral é revolucionária porque põe a música de Haydn para “conversar” com outras do seu tempo e de séculos anteriores ou mesmo de música contemporânea. Experimente passear pelos dezoito álbuns anteriores: além das sinfonias, ele gravou -- alternando-se à frente da sua Il Giardino Armonico e da Orquestra de Câmara da Basileia -- obras de Gluck, Wilhelm Friedmann Bach, Mozart e Bela Bartók.

Estamos diante de mais um álbum essencial para entendermos a música de Haydn e como ela dialoga com nosso tempo igualmente coabitado por tantas guerras. O volume 19 é exemplar pelas conexões que constrói -- e, claro, pela qualidade das interpretações modelares. Assim, as duas sinfonias de Haydn convivem com a “Paduana Dolorosa” para quatro vozes do organista e compositor Samuel Scheidt, do século 17: ela foi composta em 1621, logo depois do início da sangrenta Guerra dos Trinta Anos na Europa; e também com “Da Pacem Domine”, do compositor estoniano Arvo Pärt, hoje com 90 anos, dedicada às vítimas dos atentados terroristas islâmicos de 2004 contra os trens de Madri.


CD da Semana

Autor: João Marcos Coelho
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