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A HBO vai estrear, no mês que vem, “Pacificador”, minissérie inspirada em um obscuro personagem da DC Comics. Sua trajetória é bem peculiar:

* Não foi originalmente um sucesso: apareceu em menos de dez histórias e ficou no limbo por décadas;

* Está intimamente ligado à icônica HQ “Watchmen”;

* Faz mais sucesso nas telas do que nos quadrinhos.

Enfim, quem é o Pacificador?

A fase original

O Pacificador (Peacemaker, no original) foi criado por Joe Gill (roteiro) e Pat Boyette (arte) para a editora Charlton Comics. Não deu lá muito certo: apareceu em apenas oito HQs entre 1967 e 68, e depois sumiu por quase duas décadas.

Este super-herói surgiu em uma história de oito páginas publicada na 40ª da revista “Fightin' Five”. Tratava-se de Christopher Smith, um pacifista diplomata de carreira. Aliás, autoproclamado pacifista. Porque, indignado com criminosos (especialmente os corruptos), ele passou a combater o crime com um uniforme peculiar, com direito a um jato nas costas que o faz voar e um capacete nada fotogênico.

Smith faz uma reflexão logo na segunda página de sua primeira aventura que diz muito sobre a motivação e a identidade do personagem:

“Os países [envolvidos em guerras] deveriam estar comprando ferramentas para fazendas e alimentos básicos, além de construindo escolas. Em vez disso, compram tanques, armas e bombardeiros... e matam uns aos outros em guerras que nenhum deles deseja!” E, mais adiante: “Eu detesto violência, mas por causa da minha insuficiência [como diplomata], milhares de inocentes vão morrer! Eu... Eu devo fazer aquilo que jurei nunca fazer!”

Pronto. Nascia assim o violento Pacificador, protagonistas de histórias de aventura e espionagem sem nenhum senso de humor.

Duas décadas depois...

A última aventura do Pacificador pela Charlton saiu em 1968. Anos depois, a poderosa DC Comics comprou alguns personagens da editora – Pacificador, Besouro Azul, Capitão Átomo... Como eles poderiam ter existido no mesmo mundo de Superman, Batman e Mulher-Maravilha e nunca terem sequer ouvido falar uns dos outros?

Simples: eles viviam em dimensões diferentes. Os personagens principais da DC, como a Liga da Justiça, vivam na Terra Um, enquanto os da Charlton estavam na Terra Quatro. Tudo isso foi mostrado na minissérie “Crise na Infinitas Terras”, lançada entre 1985-86. Foi em breves aparições nesta HQ que o Pacificador voltou do limbo de quase duas décadas.

E mais: “Crise” acabou com uma revolução. O universo da DC recomeçou do zero, com todos os personagens morando em uma mesma dimensão. Era a chance de os autores recomeçarem a contar a vida dos seus personagens desde o zero – em muitos casos, mudando a origem destes heróis. Foi o que aconteceu, em um primeiro momento, com Superman, Batman, Mulher-Maravilha e outros. Em um segundo momento, com ele: o Pacificador.

Ligação com “Watchmen”

Uma certa negociação aconteceu pouco antes de Pacificador e outros heróis da Charlton fazerem suas estreias como personagens da DC. Dois artistas britânicos, o escritor Alan Moore e o ilustrador David Gibbons, apresentaram a proposta de uma história para a editora. A HQ seria estrelada pelos esquecidos heróis da Charlton e seu título dela seria... “Quem Matou o Pacificador?”.

Sim, seria uma história de mistério que começaria com o assassinato do pobre Christopher Smith. Mas não rolou: a DC quis preservar os personagens e orientou Moore e Gibbons a criarem seus próprios super-heróis. Os britânicos obedeceram e nasceu assim “Wacthmen”, uma das maiores HQs de super-heróis de todos os tempos.

Moore e Gibbons não se limitaram a decalques exatos dos personagens da Charlton, é claro. O Besouro Azul, por exemplo, recebeu toques do Batman para dar origem ao Coruja. E o Pacificador foi somado ao humor sombrio do Coringa para dar origem ao Comediante (cujo nome remete mais ao vilão do Batman, eu sei). Mas veja como começa “Watchmen”: com o assassinato do Comediante – o mote da não-publicada “Quem Matou o Pacificador?”.

Essa história parece lenda urbana para valorizar um personagem desconhecido, eu sei. Mas quem a contou foi o próprio Alan Moore, em entrevista de 1987 ao “The Comics Journal”.

A nova origem

Eu mencionei mais acima que a DC passou a reapresentar seus personagens para os leitores, recontando suas origens, após o fim da “Crise”, em 1986. A vez do Pacificador chegou em 1988, com a minissérie “Peacemaker”, escrita por Paul Kupperberg e ilustrada por Tod Smith.

Esta versão do Pacificador é próxima da original, mas com nuances. Filho de um nazista com uma norte-americana, Christopher Schmidt (que mudou seu nome para Christopher Smith) é um eficaz e violento agente do governo norte-americano, que age motivado por seu enorme amor pela paz.

Esta versão de Smith viu, ainda criança, seu pai nazista cometer suicídio na sua frente. E ele adulto é perseguido por esta cena – é constantemente provocado pelo espírito do pai morto, mesmo quando está em ação como o super-herói Pacificador. Não fica claro se quem o atormenta é, de fato, o fantasma do pai ou se é algum tipo de trauma psíquico provocado pelo trágico fato.

Os sucessores menos famosos

É normal, no universo dos quadrinhos de super-heróis, um codinome passar adiante – a DC já teve três Batmen, por exemplo, enquanto a Marvel teve sete Capitães Américas. Se o Pacificador original nunca foi muito famoso, o que podemos dizer de seus dois sucessores?

O segundo Pacificador apareceu tão pouco (coadjuvante em meras três histórias) que nunca teve seu nome e rosto revelados. Criado em 1994 por Gerard Jones e Chuck Wojtkiewicz, tratava-se de um aventureiro com um uniforme muito próximo do usado pelo Pacificador original que atuou em algumas missões de um esquadrão de superseres a serviço da ONU.

O terceiro Pacificador (logo acima) teve um pouco mais de destaque. Apareceu em 11 histórias, ganhou um uniforme diferente, vermelho e dourado, e teve até um pouco de seu passado revelado: trata-se do médico Mitchell Black, sem nenhuma ligação com Christopher Smith. Este personagem foi criado em 1999 por Bob Layton e Dick Giordano.

O filme e a minissérie

Por fim, chegamos a 2020. O cineasta James Gunn lançou o divertido “O Esquadrão Suicida”, filme que conta com John Cena interpretando o Pacificador original. Nesta versão, Christopher Smith é extremamente forte, eficiente... e burro. Mas carismático o suficiente para conseguir estrelar sua própria minissérie televisiva.

“Pacificador” estreia no dia 13 de janeiro na HBO Max. A julgar pelo trailer, mantém o tom de ação com humor de “O Esquadrão Suicida”, mas aparentemente teremos mais tempo para entender como (e por que) Smith virou o Pacificador.

Pedro Cirne é formado em jornalismo, desenhos e histórias em quadrinhos. É autor do romanceVenha me ver enquanto estou vivae da graphic novel Púrpura, ilustrada por 17 artistas dos 8 países que falam português.