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O seriado da “Mulher-Hulk: Defensora de Heróis” acabou na semana passada. Entre humor e ação, trouxe questões do universo feminino, como ser julgada por não ter namorada (embora esteja plena e feliz, com direito até a sucesso profissional) e sofrer a violência da exposição da sua intimidade.

Em uma cena do penúltimo episódio, a Mulher-Hulk olha para o espectador, quebra a quarta parede (faz isso de vez em quando) e comenta achar estranho que aquele capítulo ainda não acabou. Questiona se haverá uma reviravolta – e especula como ela seria: “Mas a pergunta é: é uma reviravolta tipo ‘tem outro Hulk, só que é vermelho’ ou vão me encontrar morta em uma geladeira?”.

Assim, de passagem, o seriado expôs uma questão ainda hoje presente não só no universo dos super-heróis, mas das aventuras na ficção em geral. A Mulher-Hulk questiona a utilização do corpo da mulher como uma “coisa” a ser alvo de uma violência absurda como recurso para vender as histórias.

O parágrafo acima ficou abstrato demais, eu sei. Mas vou pegar um exemplo. Por décadas, a DC teve um super-herói chamado Lanterna Verde (provavelmente você o conhece), dono da arma mais poderosa do universo: o anel energético. Não se trata de um só, aliás, mas de uma tropa: os Lanternas formam uma espécie de polícia do universo, com cada um deles atuando em um setor. Em certo momento, Hal Jordan, o Lanterna que atua na Terra, deixa o cargo, fazendo com que o anel e o uniforme sejam passados para um sucessor, Kyle Rayner.

O novato Kyle Rayner teve boas histórias, que abordaram temas como homofobia e abandono paternal. Mas entrou para o cânone com um dos momentos mais infames do gênero dos super-heróis. Em uma história de 1994, ele chega em casa e encontra o corpo da sua namorada, Alexandra, morto e violentamente espremido dentro de uma geladeira.

O que os autores queriam com isso? Talvez engajar os leitores, que ainda não eram muito fãs de Kyle. Ou então deixá-los ansiosos pelos próximos números: será que o novo Lanterna vai capturar o vilanesco Major Força? Se sim, o que vai fazer com ele?

O que conseguiram: despertaram reflexões sobre o papel das mulheres nas HQs (e nas aventuras em geral). Em 1999, um grupo de leitoras de quadrinhos criou o site “Women in Refrigerators” – “mulheres nas geladeiras”, em tradução livre.

A principal colaboradora do “Women in Refrigerators” (WiR, para encurtar) é Gail Simone, ela própria uma ótima roteirista de quadrinhos de super-heróis. Você pode conferir seu talento em suas passagens pelas revistas mensais de Batgirl, Sexteto Sinistro ou Aves de Rapina (também conhecido como Birds of Prey).

No site, há uma página que lista cuja apresentação começa assim: “Nem todas as mulheres nos quadrinhos foram mortas, estupradas, destituídas de poderes, aleijadas, se tornaram más, foram mutiladas, torturadas, contraíram uma doença ou tiveram outras tragédias que abalaram sua vida...”. E aí temos uma lista de personagens que passaram por um ou mais destes abusos.

Gail Simone fez mais do que apenas enumerar as super-heroínas vítimas de tamanha violência. Ela enviou a lista para dezenas de quadrinistas e os questionou: “estou curiosa para saber o que vocês acham isso, se é que têm alguma opinião a respeito”.

Muitos dos artistas responderam, e todas as respostas estão no site. Um deles, inclusive, foi Ron Marz, o homem que escreveu a brutal cena da geladeira. Destaco dois trechos da carta dele aqui, em tradução livre:

Para mim, a diferença real é menos em relação a ser homem ou mulher do que protagonista ou coadjuvante. Na maioria dos casos, os personagens principais, que sustentam suas próprias revistas, são do sexo masculino. Historicamente, os protagonistas masculinos foram capazes de sustentar seus títulos em termos de vendas, enquanto os femininas, não.”

Posso dizer que Alex [a namorada de Kyle Rayner] era uma personagem destinada a morrer desde o momento em que foi apareceu pela primeira vez. Eu a criei com a intenção de que ela fosse assassinada pelas mãos da Major Força. Tomei muito cuidado ao construí-la como personagem, porque queria que gostassem dela e que sua morte significasse algo para os leitores. Eu queria que os leitores ficassem horrorizados com o crime e simpatizassem com a perda de Kyle. Sua morte foi feita para trazer a percepção brutal de Kyle de que ser o Lanterna Verde não era só diversão. Também foi feito para cortar seus laços com sua antiga vida, abrindo caminho para sua mudança para Nova York. E, no final das contas, eu queria que a morte dela fosse memorável e ilustrasse o quão hedionda o Major Força era. Por isso a geladeira. Pelas reações, acho que tive bastante sucesso nesses objetivos. Já se passaram cinco anos [a carta é de 1999] e as pessoas ainda estão falando sobre isso. Mais do que qualquer coisa como escritor, você quer que o público reaja emocionalmente ao seu trabalho, se importe. Eu escrevi um vilão cometendo um ato verdadeiramente desprezível. Isso não significa que eu endosse ou admire esse comportamento. Duvido que Thomas Harris também pense em Hannibal Lecter como um modelo positivo. E provavelmente vale a pena mencionar que Major Force foi punido pelo ato.”

A questão maior levantada por Gail Simone e seus colegas no site – e apresentada de leve no seriado da Mulher-Hulk – é: não se corre o risco de banalizar a violência contra a mulher? Este ponto não deve ser desprezado. Além dele, há outros questionamentos. Precisa mesmo fazer tudo isso? E tão frequentemente? Não há outros tipos de recursos narrativos para que simpatizem com os protagonistas, desprezem os vilões e consumam mais quadrinhos (ou livros, filmes e seriados)?

A resposta é fácil: não, não precisa. Basta ver os roteiros de Kurt Busiek em “Astro City”, Neil Gaiman em “Sandman”, Phil Jimenez na “Mulher-Maravilha”. OK, estou pegando exemplo de escritores acima da média. Mas seria muito bom que fossem eles os faróis a iluminar os demais roteiristas, e não o índice de venda de cada edição. E que bom que o seriado da Mulher-Hulk nos trouxe este questionamento – entre tantos outros.

ps - Optei por não colocar a imagem da Alexandra, namorada do Lanterna Verde, numa geladeira. Acho a imagem de mau gosto. Mas todas as personagens femininas que aparecem nesta coluna sofreram, de uma maneira ou de outra, aquilo que o site WiR denuncia: Mulher-Hulk, Alexandra, Batgirl, a brasileira Fogo, Miragem (outra brasileira), Lili Diamante, Elektra, Raposa Escarlate, Feiticeira Escarlate e Miss Marvel.