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Fundação Padre Anchieta

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A tarefa de preservar a memória é nobre, difícil e fundamental - entre muitos outros adjetivos. Estudar e ensinar História ajuda individualmente e coletivamente - pobre da sociedade que desconhece seus próprios passos.

Vivemos, no mundo, um longo e inacreditável momento de negar os fatos. De mentir. Em 2016, o Dicionário Oxford elegeu 'pós-verdade' como palavra do ano. Segundo o dicionário britânico, "pós-verdade" significa "relativo a ou que denota circunstâncias nas quais fatos objetivos são menos influenciadores na formação da opinião pública do que apelos à emoção ou à crença pessoal". Ou seja, a pessoa acredita no que quer. Se os fatos estão contra o que ela acredita, ela vai tentar "negar" os fatos - como se isso fosse verdade. A minha impressão é que isso só piorou desde então.

Isso, claro, afeta a Ciência - como as pessoas que acreditam que a Terra é plana. E, claro, afeta a sociedade. Muitos países sofrem, ainda hoje, com governos que, por motivos que desconhecemos, querem ocultar seu passado. Por exemplo, negando que houve ditadura ou que essa ditadura matou e torturou inocentes. Parece que estou falando do lindo filme "Ainda Estou Aqui", mas esta é uma coluna sobre quadrinhos. Meu tópico hoje é o excelente quadrinho espanhol "O Abismo do Esquecimento", escrito pelo jornalista Rodrigo Terrasa e ilustrado pelo talentoso e versátil Paco Roca.

Um breve contexto. A ditadura espanhola julgou e executou centenas de pessoas. Seus corpos foram enterrados sem identificação em valas comuns. Com isso, dezenas de famílias ficaram sem notícias e sem o devido rito de despedida. No Cemitério Municipal de Paterna, por exemplo, foram enterrados, sem identificação, 2.200 pessoas em 135 valas comuns - em média, 16 corpos jogados sem respeito em um mesmo buraco. Algo horrível e que, claro, não fica restrito à ditadura espanhola.

Há um caso particular nessa terrível história. Um homem incrível: o coveiro Leoncio Badía. Ele sabia que estava enterrando corpos de pessoas monstruosamente executadas. Seres humanos que eram pais, filhos, irmãos. Que deixam entes queridos. Em segredo, ele começou a escrever o nome da pessoa em questão, bem como a data do seu enterro, em um pequeno papel; enrolado, este "bilhete para o futuro" era guardado em uma garrafinha e deixado no bolso da pessoa assassinada. A esperança dele é que, no futuro, seu esforço ajudasse na identificação das pessoas massacradas pela ditadura.

A história que se segue é impressionante. Muitas pessoas são importantíssimas: um historiador que descobriu que uma pequena vila tinha uma quantidade anormal de registros de óbito por arma de fogo em um período específico, o que poderia ser (e era) um indício de vala comum para executados; políticos que lutaram para que verba pública fosse alocada na busca por estes corpos; arqueólogos que, com uma precisão impressionante, ajudaram a encontrar e identificar as vítimas. E os parentes dos executados que, por décadas, décadas!, lutaram pelo direito de descobrirem onde estavam os corpos de seus irmãos, pais, tios.

Essa luta de valor inestimável foi registrada por Terrasa e Roca em "O Abismo do Esquecimento". Como leitor de quadrinho, me deparei com uma obra excelente em tudo: a narrativa, as cenas, as reflexões sobre uma sociedade que pode, ao mesmo tempo, ser cruel como um vilão dos livros do James Bond e heroica como nos mitos. Cruel: alguns políticos espanhóis lutaram abertamente contra a escavação das valas comuns e identificação dos corpos, alegando "revanchismo", e que não se deveria gastar dinheiro público com isso. Heroica: imagine a força de uma pessoa que fica décadas lutando para descobrir o que aconteceu com seu pai, tio, avô.

A tarefa de preservar a memória é nobre, difícil e fundamental.

Pedro Cirne é formado em jornalismo, desenhos e histórias em quadrinhos. É autor do romance “Venha me ver enquanto estou viva” e da graphic novel “Púrpura”, ilustrada por 17 artistas dos 8 países que falam português.